Infinita

tedioEla estava ali, deitada na cama e imóvel, já havia algumas horas.

Encarava o teto, pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo sem se focar em nenhum pensamento em específico. Isso dava a contraditória sensação de que não estava pensando em nada.

Na verdade estava sufocada. Estava sufocada com aquele monte de nada embolado na sua garganta. Pedindo para sair em um grito ou em um jato de vômito, tanto faz.

Viu as luzes andarem pelas paredes do quarto e madeiras do forro, junto com o sol. Era um domingo.

Poderia dizer que estava entediada. Mas só se o tédio pudesse ser definido como um estado constante de espírito e não um momento qualquer. Por isso o nada na garganta.

Não queria mais ouvir as músicas que gostava, assistir aos programas que costumava assistir, ou ir aos lugares que usualmente frequentava. O mundo que viveu até aquele dia não a satisfazia mais. Era insuficiente. Era pequeno. Era limitado. Era infinita demais para ele.

Sentou-se na cama e deu de cara com o espelho da penteadeira. O sol do fim da tarde deixava seu quarto com um ar dramático e intenso. Era quase uma poesia romântica.

Seu rosto refletido na superfície lisa trazia olheiras e os lábios um tanto descorados. O cabelo descia ondulado até quase abaixo dos seios. Ela não aguentava mais nem a si mesma.

Achou que o momento nunca mais seria tão perfeito e resolveu procurar uma música que nunca houvesse ouvido antes. Encontrou. Era aquela. A voz melancólica e rouca fazia um dueto completamente harmônico com o dia profundo e estranho.

No banheiro pegou a navalha do pai. Voltou para o quarto.

Estendeu um lençol no chão, em frente à penteadeira. A última coisa que queria era fazer sujeira e acabar dando trabalho para os outros.

Com um suspiro tenso, se sentou de frente ao espelho. Encarou-se. Tinha medo. Mas seria incapaz de continuar naquela vida. Precisava por um fim.

Lentamente, ergueu a navalha até a altura do pescoço. Sentiu o medo instintivo a cada centímetro. Decidiu que teria de fazê-lo em um golpe só, ou não seria capaz de ir até o fim.

Mirou o ponto exato, segurou os cabelos com a mão, fechou os olhos e desferiu o golpe.

Abriu as pálpebras devagar. E sorriu. O primeiro passo para mudar de vida fora dado.

Deixou que as pontas cortadas do cabelo caíssem no lençol. Sempre quis usá-los em um chanel.

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