Passageiros

1249_1Essa é a história de um atendente de guichê de ônibus. Pode parecer um personagem desinteressante, aquele carinha por quem você passa e só diz para onde vai, estende o dinheiro, pega a passagem, o troco e vai embora, sem nem precisar cumprimentar, ou agradecer pelo serviço prestado.

Mas acontece que a vida é engraçada e quando ele deu por si, estava atendente de guichê de ônibus. O salário era o suficiente para ajudar em casa e até para se casar com a namorada, quando ela também começasse a trabalhar. Os companheiros de trabalho não eram tão animados e satisfeitos em atender pessoas apressadas e vender passagens, mas ele não ligava, porque encontrou no seu trabalho uma oportunidade de realizar o seu sonho.

Explico.

Ele cresceu vendo o pai rir da sua cara, quando dizia que iria mudar o mundo.

Depois da gargalhada sempre vinha o comentário implacável: “Pobre não muda mundo nenhum. Agradeça se não morrer de uma bala perdida antes de ser de maior.”

No começo ele ficava triste. Mas depois entendeu que toda aquela amargura era uma consequência da vida frustrante que seu pai levara, casando-se com sua mãe quando ela engravidara dele e trabalhando como ajudante de construção para sustentar a família. Não que essa seja uma vida frustrante por si só. Mas se casar por obrigação e ter uma profissão porque “precisa trabalhar” e não porque gosta daquilo não é bem o sonho de uma vida, né?

Por isso o pífio ordenado que ganhava nos trabalhos que pegava não rendia. Gastava tudo no bar, tentando esquecer-se de si mesmo. Para compensar, a mãe trabalhava como doméstica e babá, tentando manter as contas em dia e os quatro filhos alimentados.

Ele reconhecia que a vida fora cruel com sua família desde sempre. Mas como todo filho mais velho, habituado a acompanhar os perrengues dos pais desde cedo, sabia ser compreensivo com a ausência deles e até com as palavras duras que vinham com frequência.

Acabou se tornando um observador, com uma sensibilidade tão apurada, que era capaz de saber quase tudo sobre uma pessoa nos cinco minutos iniciais de uma conversa, às vezes só de olhar para ela.

E é nessa hora que voltamos ao guichê, onde ele vendia passagens do itinerário direto da sua cidade para a capital.

Em seu turno, que era das 14h às 22h, fazia o possível para tornar aquela viagem a melhor possível para as pessoas que atendia. Sua memória e percepção invejáveis, guardava exatamente para quem havia vendido cada poltrona e, quando via um passageiro familiar, já sabia se ele preferia sentar à janela ou próximo ao corredor, do lado do motorista ou no oposto, na parte da frente do ônibus ou lá pelo fundo.

Com o tempo, percebeu que poderia fazer um pouco mais pelos passageiros. Começou a juntar aqueles que tinham interesses em comum, como o dia que colocou lado a lado a escritora idosa e o estudante de literatura. Soube depois que o estudante conseguiu um novo direcionamento para a sua monografia e a escritora ganhou o dia por ter uma conversa tão boa com um fã do seu trabalho. Outra história que se orgulhava ao contar, foi quando um passageiro veio lhe agradecer por incentivá-lo a sentar na poltrona ao lado do corredor, apesar de ele sempre preferir a janela, pois naquele dia conheceu a mulher da sua vida. Disse isso de um jeito tão apaixonado, que nem notou o sorrisinho mal disfaçado que o atendente deixou escapar.

E foi por essas e outras que ele levava o mesmo sorriso largo e simpatia de sempre, ao atendê-la naquele dia. Ela chegou com pressa e uma cara de quem sofria indigestão. Pediu a próxima passagem para a capital e jogou o dinheiro no balcão, sem responder ao seu “boa tarde”. Enquanto preenchia o formulário para imprimir a passagem, ele observou seu olhar frio e duro, os dedos tamborilando o vidro, cheios de pressa. Ela parecia desconfortável dentro da própria pele. Resolveu arriscar.

_Está um dia lindo, não?

_Oi?

_Dia lindo. Hoje.

_É, pode ser. Odeio calor.

_O ônibus tem ar-condicionado. Pode ficar tranquila.

_Espero que não seja forte demais. Já saí resfriada de um ônibus desses.

Essa era difícil. Quem ele colocaria ao seu lado?

_Prefere sentar na janela para ver a paisagem?

_Eu só quero chegar logo na minha casa, ok? Pode ser em qualquer lugar.

_Ah, a senhora mora na capital, então! Veio conhecer a cidade ou tem parentes aqui?

_Meu filho, eu não estou a fim de conversa. Estou pouco me fodendo para o dia lindo, que você deve saber bem pouco, já que fica enfurnado aqui nesse cubículo, ou para essa cidade de merda. Já que eu estou pagando o salário desse seu servicinho medíocre, vou ficar bem feliz se puder fazer o seu trabalho rápido sem ficar de papinho, ok?

Ele realmente ficou surpreso com essa reação. Já havia atendido muitas pessoas mal humoradas, mas essa mulher ultrapassou todo o seu critério de grosseria.

_Sim, senhora. A passagem já está imprimindo. Mas não fala assim do meu trabalho, não. Eu gosto de trabalhar aqui.

Ela riu sarcástica.

_Ah, que surpreendente.

_Gosto sim. Aqui eu posso mudar o mundo.

_Daqui? Duvido.

Ele sorriu, como se guardasse um segredo que mais ninguém no mundo soubesse.

_Se a senhora não consegue ver nem como eu posso mudar o mundo de dentro desse guichê, também não vai saber mudar o mundo se estiver em um lugar melhor. Além do mais eu só quero mudar o mundo. Nem que seja o mundo de uma só pessoa.

Circulou o número da poltrona e da plataforma, na passagem e a estendeu.

_Tenha uma boa tarde.

A mulher ficou satisfeita por ninguém haver se sentado ao seu lado durante a viagem. Mal sabia ela que o atendente achou que ninguém merecia a sua companhia.

5 pensamentos sobre “Passageiros

  1. Cada um tem que enxergar a sua mudança em cada mundo, desde o fato de simplesmente estar alí, até ser um ativista silencioso da compreensão e boas maneiras, como esse personagem quase messiânico. Textinho lindo pra uma “bela Segunda-feira” 😉

  2. Justamente quando acabo de publicar um texto falando sobre educação, a srta. aparece com isso. Realmente, assim como todos os outros, muito bom.
    Muitas vezes nos achamos soberbos o suficiente para ponderar sobre o trabalho dos outros, ah, quanta vaidade!

    Seu texto é uma prova de que só é preciso gostar do que se faz para encontrar possibilidades inimagináveis.

    Mudar o mundo parece grande pra quem não tem imaginacão. Ainda bem que esse não é o caso, não?

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