Areia

ampulheta2Observava, como em transe, os grãos diminutos e coloridos escoando pelo vão estreito do vidro. Estendida sobre um pufe disforme, deslizava preguiçosamente os dedos pela superfície lisa, enquanto o tempo passava.

Construíra aquela ampulheta com as próprias mãos, até mesmo o vidro. Foi quando visitou uma fábrica de vidro, na última viagem de férias, que teve a ideia. Perguntou ao artesão como funcionava e, enquanto ele explicava, em sua mente surgiu um esboço. Na mesma hora expôs sua ideia e o senhor, já idoso, não só disse que era possível, como deixou que ela mesma assoprasse e moldasse a mistura viscosa e amarelada, até que tomasse a forma que desejava. Depois, já de volta, comprou os pedaços de madeira e trabalhou por horas a fio na ampulheta, lixando, pintando, encaixando. Fez questão de desenhar nas colunas coisas que lembrassem cada lágrima que deixou cair em vão. Precisava registrá-las e lembrá-las. Escolheu areias douradas, pois achava poética a expressão “as areias douradas do tempo”. Bastante adequado.

Por fim admirou o próprio trabalho. Era uma ampulheta bem grande. Quase da altura de um banquinho. Levava exatas três horas para que toda a areia passasse de um lado para o outro. Lembrava-se de que, na primeira vez que viu a pequena duna se desfazendo em uma cascata central, sentiu todas as suas dores fluindo jundo daqueles grãos e decidiu que nunca mais ninguém deitaria em sua cama sem que o artefato fosse acionado.

Passou a dedicar três horas a cada romance que passava por sua vida. Três horas eram o suficiente para que se rompessem as barreiras do gelo inicial, as carícias esquentassem e, talvez a noite acabasse bem. Menos do que isso não era o suficiente para que se sentisse à vontade e mais do que isso seria arriscar uma intimidade desnecessária.

Assim que o último grão deixava a parte superior ela dava um fim ao encontro. Deixava que as lembranças se esvaissem buraco abaixo, certificando-se de que não pensaria mais naquele que acabara de deixar para trás.

E estava satisfeita com o resultado dessa lógica. Não houve mais decepções desde que adotou a estratégia. Muito menos preocupações com o gerenciamento de relacionamentos que não eram nem namoro, nem sexo casual. Bastava um jantar, “quer entrar um pouco?”, girar a ampulheta, deixar escoar o tempo e, quando ele acabava, acabava sua disponibilidade também. Talvez ainda tomasse um vinho para relaxar e adormecer tranquila.

Além do mais, gostava da dança da pequena duna, enquanto ela sofria com a gravidade e caía cadencialmente, fomando linhas e fios completamente harmônicos, o brilho dourado cintilando com a movimentação.

Deixou escapar um sorriso cheio do vazio da razão, quando ouviu o chuveiro sendo desligado e o clique da porta do banheiro destrancando. Faltava pouco para a areia terminar, ela já estava vestida e ele prestes a ser dispensado.

Ele entrou no quarto com a toalha em torno da cintura, penteando os cabelos molhados com os dedos, quando a viu ao lado da ampulheta. Aproximou-se devagar e deslizou as mãos levemente por seus ombros e braços, beijando-lhe a nuca. Ela se voltou sorrindo e se beijaram. Ele se afastou alguns centímetros e a encarou, como se quisesse mergulhar em seus olhos.

Então ele se levantou e, com cuidado, deitou a ampulheta no chão, deixando-a na horizontal.

Ela se ergueu num átimo, pasma e completamente atordoada pela forma como ele simplesmente chegou e subverteu a sua lógica. Encarou as areias, agora espalhadas e imóveis, dentro do vidro. Voltou-se ainda boquiaberta para indagar:

_O que foi que você fez?

_Não quero ver o tempo passar enquanto estou com você.

Pensou em argumentar, retrucar, redarguir, qualquer reação que fosse. Mas ele a tomou em seus braços novamente e percebeu que na verdade só queria beijá-lo, então beijou. De relance, olhou para a ampulheta.

Talvez não haveria mal se deixasse o tempo parar um pouquinho.

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