O vendedor de pipocas

carrinho+de+pipoca+cod+05+suzano+sp+brasil__21400C_1Realmente a graça da vida parecia estar nas pequenas coisas. Foi o que ela pensou naquele dia em que saiu um pouco mais cedo do trabalho. A felicidade não estava no fato de ter saído mais cedo, ou de ter conseguido cumprir todas as tarefas que pretendia, no centro da cidade.

Mas sim por ter conseguido fazer algo que não fazia desde os tempos da faculdade: caminhar pela cidade à noite, comendo uma coxinha de boteco, daquelas meio murchas e já quase frias.

Não que a cidade fosse das mais bonitas, muito menos que ela gostasse de coxinha murcha e quase fria. Ela só queria matar a saudade e curtir um pouco aquela nostalgia toda, agora que estava em um bom momento da sua vida.

Além do mais, o centro da cidade à noite era diferente das outras horas, com toda aquela movimentação das pessoas ao fim do expediente, vendedores ambulantes aproveitando a hora do rush e as lojas segurando suas portas abertas por mais alguns minutos.

Resolveu atravessar a avenida para pegar o ônibus para casa e ficou olhando para uma vitrine de sapatos. Quando se deu conta da esquina em que estava, o semáforo já havia aberto para os carros e teve de esperar ao lado dos outros pedestres.

Aquela esquina era diferente das outras porque era o ponto habitual de um carrinho de pipocas. Nesse carrinho de pipocas ficava um certo rapaz de quem se lembrava claramente, ainda dos dias de colégio. Disfarçando, arriscou um olhar na direção dele. Ele muito sério, servindo uma mãe e seu filho e recebendo o dinheiro, nem reparou nela.

Pensou se dessa vez deveria manter o contato visual e cumprimentá-lo de longe. Preferiu continuar fazendo de conta que não se lembrava dele.

Há exatos dez anos atrás, duas garotas veteranas do colégio público onde ela ainda era caloura se aproximaram com aquele ar zombeteiro que ela conhecia muito bem: pretendiam se divertir às suas custas.

_Oi, você! É você mesmo, menina. Deixa eu te perguntar uma coisa. Um amigo nosso quer te conhecer. Você aceita?

Pensou em perguntar se elas tinham ideia do quanto aquela brincadeira era manjada e sem-graça, mas percebeu que realmente um rapaz as observava de longe. Na hora se identificou. Ele também não era popular, assim como ela. Muito menos bonito e carismático. Assim como ela. Solidária à causa, entrou na brincadeira.

As duas o chamaram e saíram gargalhando, orgulhosas da própria genialidade em constranger duas pessoas.

Ele se aproximou com o mesmo ar desconfiado que ela trazia.

_Deixa eu adivinhar: elas te disseram que eu queria te conhecer.

Ela riu.

_Pois é. Disseram a você que eu queria te conhecer?

_Sim.

Riram e resolveram se sentar embaixo da escada para conversar sossegados, o lugar onde os excluídos se refugiavam. A partir daquele dia, se encontravam sempre no mesmo lugar para bater um papo, nem que fosse por alguns minutos. Acabaram se tornando amigos, pois se interessavam pelas mesmas coisas e falavam a mesma língua. Ele contou que trabalhava como vendedor de pipocas e gostava das mesmas bandas de rock que ela ouvia. Ela não trabalhava, mas adorava ler os mesmos livros que ele lia.

Nessa época, ela sempre comprava pipoca no carrinho dele, quando ia ao centro. Ou pelo menos o cumprimentava de longe. O que aconteceu foi que ele, por ser mais velho, terminou o colégio antes dela. E a amizade não resistiu à separação, mesmo que no início ela ainda o visitasse no carrinho de pipocas.

Com o tempo as coisas mudaram: ela entrou na universidade, estudou muito, mudou bastante e se formou. Começou a trabalhar em sua área, onde conheceu pessoas novas e mudou mais ainda. Começou a fazer planos de viajar para o exterior, comprar um apartamento e já era completamente diferente daquela garotinha do colégio. Mas ele continuou no carrinho de pipocas.

Agora ali, torcendo para que o semáforo fechasse logo, ela evitava a qualquer custo o contato visual, ainda que uma atração irônica puxasse seus olhos naquela direção a cada cinco segundos. Pensou em ir comprar pipoca e falar com ele. Mas convenceu a si mesma de que não teriam mais assunto, pois ela era formada, profissional em ascenção, cheia de ideais e projetos para o futuro e ele… ainda era um vendedor de pipocas. Sobre o que falariam?

Também se convenceu de que isso não era arrogância de forma alguma. Apenas eram pessoas diferentes, agora. E nessa hora seus olhos se encontraram. Ele ainda mais sério, com uma mágoa no olhar que deixava bem claro que ele a reconhecia apesar dos anos e do visual totalmente mudado. O choque daquela mágoa foi tão fundo, que ela hesitou por alguns segundos e, quando pensou em dar um sorriso amarelo e um aceno discreto, ele já havia desviado para atender outro cliente.

Aquele olhar não durou mais do que dois segundos. Mas foi o suficiente para sentir o que ele pensava dela: era como todas as outras. Se considerava superior a ele e, tanto ele como seu carrinho de pipocas, já não fazia mais parte do seu mundo.

Voltou para casa com um gosto amargo na boca.

No fim do dia, a coxinha lhe causou uma indigestão.

5 pensamentos sobre “O vendedor de pipocas

  1. MEU DEUS. EU AMO SEUS TEXTOS!!!!!!!
    Esse em particular me deixou entre totalmente angustiado e incrivelmente ansioso pra saber o final. Eles são tão cotidianos, tão verdadeiros, tão intensos, tão tudo. Sério mesmo, é um prazer inenarravel acompanhar seu blog, sua escrita.
    Recomendo pra todos os meus amigos e meu face já é repleto de trechos da tão falada “Deka Pimenta” xD
    Uma pena que nenhum deles tenha realmente se interessado em acompanhar o blog. Mas não importa. O fato de terem lido um texto ou outro, pra mim, já é extremamente gratificante ^^

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