Impotente

babyCry_2371027bO bebê não parava de chorar.

Ela apenas encarava a criaturinha dentro do berço de plástico, cuidadosamente estacionado pela enfermeira ao lado do seu leito no quarto 341. Sua expressão era tão estática quanto indecifrável.

Ela odiava aquele bebê. E sofria por isso. Sempre ouvira falar sobre o instinto maternal e se corroía por não ser capaz de amar automaticamente a criança que carregara por nove meses dentro de si.

Só queria que ele calasse a boca. Não queria ter de acalentá-lo, mas sabia que era sua obrigação, como mãe. Por um momento começou a juntar os panos que estavam dentro do carrinho e amontoá-los sobre a boca do bebê para abafar os gritos estridentes. Mas então viu os bracinhos se agitando e recuou horrorizada pelo que fizera. Não queria matá-lo, apenas silêncio. Porém ele chorava ainda mais alto, agora.

Nunca quisera ter filhos. Mas ele estava lá. Chorando. Indefeso. Precisando dela. Os seios pesavam com o leite. Ela sabia que, assim que começasse a amamentá-lo, os mamilos rachariam. Viu os seios da sua mãe sangrarem e ela se contorcer de dor, quando amamentava os irmãos mais jovens.

Estendeu novamente as mãos, dessa vez numa tentativa de acariciar a pele macia das pequeninas bochechas. O bebê era bastante cabeludo, embora ela mesma tivesse poucos cabelos, bastante finos. Com certeza puxou aos cabelos do… pai. Contraiu o braço, incapaz de completar o gesto.

Ouviu muitas vezes que fora agraciada com a dádiva de poder gerar um ser dentro de si e o seu próprio corpo prover o alimento a este filho. Só não entendia onde essa dádiva transformava a maternidade em uma obrigação. Parecia muito claro para todos os outros que ela era uma louca por abrir mão desse dom divino. Era bem irônico que justamente ela, a dona do útero, não concordasse com isso.

Mas esse não era o pior problema. O problema é que ela um dia amou o pai daquela criança. Agora ele não estava mais ao seu lado. Ela o traíra. E fora descoberta.

Então ele a abandonou. Mas abandonar não era o suficiente. Ele usou a base do telefone sem fio para bater em seu rosto. Abriu um corte acima da sobrancelha que sangrou bastante. O sangue pareceu deixá-lo ainda mais furioso. Ela gritou por ajuda, implorou para ele parar, ela não queria. Ele só ficava mais animalesco com seus gritos. Até que tudo terminou. Sua melhor amiga a encontrou incapaz de se levantar sozinha do chão da sala, horas depois de ela finalmente conseguir completar uma ligação no celular.

Ficou extremamente machucada. De muitas maneiras. Teve crises de pânico e não deixava nenhum homem se aproximar dela. Perdeu a capacidade de confiar. E não demorou muito para perceber que estava grávida. Dele. Daquilo que aconteceu naquele dia que ela tentava desesperadamente esquecer.

Era o lado mais fraco da corda e era ali que sempre haveria de romper. Estava fragilizada em todas as formas imagináveis e ainda assim, teria de lidar com as consequências de uma violência cometida contra ela. Aceitar? Reagir? Se rebelar? Todas as opções eram erradas, pois a situação parecia sadicamente construída para que a obrigação de cuidar das consequências a impedisse de buscar justiça. Não podia fugir da sua obrigação, ou seria cobrada por isso e perderia a razão que, segundo os outros, nunca teve.

Quando a enfermeira entrou no 341 o recém-nascido estava quase roxo de tanto chorar. A mãe olhava fixamente para a parede branca à sua frente, com um olhar apático. O leite vazava de seus seios, formando duas rodelas em sua camisola. Ela não se movia.

Desesperada, a enfermeira acolheu o bebê e o colocou no colo da mãe, forçando-a a segurá-lo. Dizia que ela precisava amamentá-lo, pois o filho tinha fome.

O choque de ter o resultado do… “daquilo” em seus braços foi tão grande, que ela não teve outra reação a não ser olhar o rostinho contorcido pelo choro. Assim como ela não escolhera engravidar dele, ele não tinha culpa pelo que lhe tinha acontecido. Pensou que a única coisa que deveria fazer era amá-lo e era incapaz disso. Odiou-se.

Com ajuda da enfermeira ajeitou o seio para fora da roupa e viu a boca do bebê procurando o bico sofregamente. Considerou que aceitar a situação e cuidar dele era se acomodar. Mas fora arrastada a isso. Era tudo o que podia fazer, já que até os seus sentimentos pareciam ir contra o que era certo.

Pelo menos agora ele não chorava mais.

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2 pensamentos sobre “Impotente

  1. Devo confessar que fiquei olhando pra tela por alguns minutos, antes de saber se diria algo ou não sobre o texto. A única coisa que me restou, foi dizer que várias vezes esbarrei entre o que se é dito correto e a angústia de cada sentimento. É difícil dizer quem não sentiria o mesmo que ela, se é que existe alguém que não sentiria o mesmo que ela… Parabéns mais uma vez por sua sensibilidade.

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