Morto

A morte é assim, amigos.lápide

Uma hora você está lá, vivão, tomando um café e conversando com seu sócio e na outra esta indo para a luz.

E para os curiosos, a morte é todos esses clichês que falam por aí, viu? O medo, o frio, as vozes se distanciando, a paz e a caganeira final. Em seguida sua vida passa diante dos seus olhos como se fosse um filme e surgem os entes queridos que já se foram, te conduzindo com amor, para quem é de amor e com um “se fodeu, otário”, para quem havia morrido sem receber aqueles 50 contos que você pegou emprestado.

Eu não tenho muita certeza do exato momento em que parti, nem qual foi o motivo. Me lembro do café, do meu sócio e de acordar no hospital cheio de tubos na boca. Ouvi os médicos sussurrando coisas bem pouco encorajadoras sobre o meu estado e aí veio: medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.”

Foi quando eu entrei no túnel e vi a famosa luz. Fui indo atrás dela, o pontinho luminoso se transformou em uma saída e de repente eu estou aqui, deitado confortavelmente no caixão.

É essa a parte que ninguém sabe até morrer: o fim do túnel dá no seu velório. Dá para assistir tudo e você, meu amigo, tem um lugar privilegiado.

Como eu vejo tudo e ouço todos, no começo achei que fui vítima de erro médico e ainda estava vivo. Mas aí eu fui me levantar e notei que não sentia as pernas. Pensei: “Pronto. Fui vítima de erro médico e ainda por cima fiquei paraplégico.” E fui tocar as pernas, mas não sentia meus braços.

Então eu comecei a perceber que eu via e ouvia, mas não sentia nada. Nem gosto, cheiro, nada. E percebi também que não precisava me preocupar em respirar. Eu apenas estava lá, assistindo a tudo e vendo a todos chorando minha morte, antes de ir embora de vez. Portanto descobri que o funeral faz bastante sentido para o morto.

Desde que saí do túnel e me descobri aqui, mergulhado em flores, algumas coisas interessantes aconteceram. Apareceram todos aqueles parentes que a gente nunca vê, mas brotam em casamentos e velórios. Apareceu também um rapaz sebosinho que eu sempre via rodeando minha filha, mas dessa vez ele está agarrado a ela. Minha vontade é levantar daqui, direto para o pescoço dele, mas as forças do universo me impedem. Pelo jeito minha morte fez os dois se sentirem livres para assumir algo que já deveria estar acontecendo debaixo do meu nariz, em vida.

Minha filha chora bastante e o oportunista a consola. Em meio à conversinha melosa dos dois eu ouço algo sobre “vômito” e “asfixia” e acho que isso tem algo a ver com a minha morte.

Minha mulher permanece sentada na cabeceira do caixão, chorando um bocado e murmurando coisas sobre o meu seguro de vida. Espero que ela não gaste tudo em plástica.

Vejo uma das irmãs da minha mulher cochichando com as outras sobre como ela (minha mulher) não parece estar tão mal assim por minha partida. Bom, ela está chorando. Parece-me o suficiente para quem andava com uma conveniente dor de cabeça que já durava quase 4 anos.

No meio dos meus parentes estão alguns amigos, meus parceiros de truco e algumas pessoas do escritório. Pelo menos a minha estagiária parece realmente triste pela minha morte. Eu tinha prometido efetivá-la no próximo mês.

Falando em escritório, o meu sócio acaba de chegar. Ele está com aquela cara triste que ele faz quando vai dizer a um cliente que  não há reembolso para produtos que vieram com defeito, se o comprador não reclamar em até 15 dias a partir da data de compra. E, que “infelizmente a garantia já expirou.”

Sim, ele é bom em conseguir o que quer. Eu sou… era. Eu era bom com números. Por isso eu fazia a parte financeira e administrativa do negócio e ele fazia o que queria. Ninguém resiste a ao seu sorriso. Nem mesmo a minha mulher. Além da sociedade corporativa ele também quis ser sócio do meu casamento.

Acho interessante lembrar que com o tempo ele conseguiu também adquirir a maior parte da empresa e eu nem me lembro direito como foi que isso aconteceu. A sorte foi ter percebido a tempo de ele não tomar até as minhas calças e consegui mexer os pauzinhos jurídicos para garantir pelo menos uma reserva de emergência.

O advogado me custou caro. Mas para quem só faltava perder as pregas, nem reclamei. Quem não gostou nem um pouco, foi o meu sócio. Inclusive estávamos em uma reunião, discutindo esses detalhes, no dia em que morri.

Eu estava tão nervoso, que pode ter sido infarto. Mas não combina com os sintomas que minha filha falou. Ele esbravejava comigo e não parava de mastigar amendoins. Ele insistia em manter um pote cheio deles no escritório, mesmo sabendo que eu sou… era. Eu era alérgico a amendoins. E aí foi pegar café para ele e perguntou se eu também queria. O resto vocês já sabem.

Meu sócio está vindo na direção da minha mulher. Presta suas condolências e pousa sua mão direita sobre as minhas, cruzadas em meu peito. Babaca. Ninguém suspeitaria de tamanha cara de pau. Ele ainda faz um cafunezinho na minha mulher.

Ouço ela perguntar se os médicos descobriram o que houve.

Ele responde que foi alergia a amendoins.

E como um filme, a sequência de fatos passa diante dos meus olhos: meu sócio puto, enchendo minha cara de perdigotos enquanto grita, oferece café, mastiga amendoins, traz o meu café que está com um estranho gosto salgado e…

Desmaio, hospital, médicos, medo, frio, paz, caganeira, filme, amor e “se fodeu, otário.”

Ah, que droga.

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8 pensamentos sobre “Morto

  1. Estranho, todo o começo do conto me lembrou um pouco de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, talvez pela temática da narratória ser a mesma, sem falar no narrador, em primeira pessoa.
    Não vou dizer que super me indentifiquei com o conto dessa vez, pq seria deveras estranho, afinal, nunca morri e muito menos presenciei meu próprio velório xD

    Mas mais uma vez você se revela ao fazer um texto tão incomum, e ainda assim com todas as particularidades que parecem ser só suas, como a impressão que o leitor tem de que vc viveu a personagem, antes de expor a vida dela através de suas palavras.
    Mais uma vez, fico sem palavras pra descrever a emoção que é acompanhar seu blog e seus contos =)

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