O ponto

alone-calle-chica-choices-chuva-city-Favim.com-38973No meio do caminho para o ponto de ônibus a chuva começou a cair.

Tudo nessas horas é relativo. A metade do caminho pode ser muito longe se o caminho todo tem coisa de dois quilômetros e também pode ser bem perto, caso o ponto de ônibus fique a menos de cinquenta metros do ponto de partida. Ainda assim, a distância a ser percorrida é relativamente proporcional à intensidade da chuva, seja essa distância dois quilômetros ou dois metros.

No meu caso foram dez metros que bastaram para que eu me abrigasse já ensopada sob o telhado do ponto.

Sob ele também se escondia um rapaz, de boné e regata vermelhos. Ele trazia um carrinho daqueles de sacoleira, onde se encaixa na parte metálica bolsas, caixas e outras coisas ruins de carregar e se prende tudo com uma corda elástica, que tem dois ganchos, um em cada ponta. O carrinho trazia umas três caixas, já todas deformadas pela tensão do elástico e, provavelmente, por uma viagem longa.

Cheguei meio esbaforida, passando as mãos pelo cabelo para ajeitar e secando a mochila com a manga da blusa. Troquei um olhar com o rapaz e acenamos em um cumprimento seco, que a situação de ambos estarem ilhados em um ponto de ônibus exigia.

Embora intensa, a chuva caía estável. Permanecia constante e reta, sem vento nenhum. Ótimo, pensei sarcástica. Combinava perfeitamente com o meu tédio, naquele momento. Não estava interessada no livro dentro da bolsa, muito menos nas músicas do mp3. O pior de tudo é que esse silêncio exterior e o ritmo cadenciado da chuva deixavam meus pensamentos em polvorosa, doidos para serem ouvidos.

Passou um ônibus. Não era o meu. Esse era para Santa Isabel.

Fiquei juntando os riachos de água que escorriam pelo chão com a ponta do tênis, até que a voz do rapaz dispersou os pensamentos.

_Tem horas?

Pedi um momento, pois não costumo usar relógio. Fui olhar no celular que estava dentro da bolsa.

_Sete e quinze.

Realmente, meu ônibus estava atrasado. Mais quatro ônibus passaram, e nenhum deles era o meu. Talvez houvesse congestionamento no centro, por conta da chuva repentina. As pessoas ficam desesperadas quando chove e parece que a afobação pipoca em forma de carros.

Outro ônibus para Santa Isabel. Achei irônico que um ônibus para outra cidade passasse em uma frequência maior do que o meu, que me levaria apenas até o outro bairro.

Um carro passou correndo e, quando viu a poça d’água em frente ao ponto, desviou para passar sobre ela propositalmente, molhando a mim e ao meu companheiro de naufrágio.

Ele xingou bastante. Eu senti um desânimo enorme e quis ter uma bazuca à mão.

Ri do meu exagero, mas considerando que se as armas fossem de fácil acesso a qualquer um, pequenas crises de ira seriam a maior causa de homicídios. Com ou sem arrependimento depois.

Talvez não precisaria ir tão longe. Quantas vezes eu cheguei a odiar uma pessoa sem motivo algum, sem mesmo conhecê-la direito e depois de alguns anos senti um remorso imenso por ter direcionado algum tipo de sentimento negativo a alguém que nunca tinha me feito mal.

Pode soar novamente exagerado, mas já cheguei a pensar em pedir desculpas a essas pessoas. Imagine a cena, que ridícula:

“Com licença. Você não me conhece e nunca me fez nada, mas eu te odiava muito e me arrependo demais desse sentimento. Poderia me desculpar e sermos grandes amigos a partir de agora?”

Aí sim a pessoa teria mesmo um motivo para me mandar à puta que pariu. Além do mais, provavelmente o alvo do meu extinto ódio nunca imaginaria que em algum momento eu desejei o seu atropelamento, até o momento em que eu lhe contasse. Portanto além de ridículo, pedir desculpas seria burrice.

Porém, mesmo convincentes, tais argumentos não diminuíram o meu remorso. Cada um carrega a culpa que merece, por mais óbvio que isso possa parecer.

Mais um ônibus passa, para Santa Isabel. Impressionante. Vinte para as oito da noite e eu aqui, a chuva aqui, o rapaz aqui. Qual ônibus ele estaria esperando?

O pior é pensar que se eu pudesse voltar no tempo, não faria diferente. Pois voltando no tempo eu não teria a mesma percepção da situação, que tenho hoje. Talvez a minha única possibilidade seria não me recolher ao meu canto confortável, quando as oportunidades aparecessem. Me senti confortada ao tomar essa decisão, certa de que tivera uma epifania e seria uma pessoa melhor a partir dali.

Foi exatamente nesse instante que o meu parceiro de cárcere deu sinal a um ônibus e, quando este estacionou, perguntou ao motorista:

_Por favor, este ônibus vai para Santa Isabel?

Minha cabeça deu um nó. Já havia passado pelo menos três ônibus para lá e era impossível que ele não tivesse visto nenhum deles. Na verdade a situação era bem óbvia: ele não sabia ler.

Talvez eu devesse me oferecer para avisar quando o ônibus passasse. Mas será que ele se ofenderia com minha ajuda? Ou se ofenderia caso eu perguntasse se ele sabia ler? A chuva continuava constante, impassível, impávida.

Decidi que assim que o Santa Isabel passasse novamente, eu o avisaria. Talvez ele se ofendesse, mas eu não me importaria.

E o meu ônibus apontou na esquina.

E agora? Se eu pegasse o ônibus e o homem realmente fosse analfabeto, ele poderia continuar horas esperando pelo Santa Isabel que não viria. Por outro lado, se eu ficasse para ajudá-lo seria obrigada a esperar mais quarenta minutos pelo próximo ônibus. O meu ônibus se aproximava e o meu impasse ficava mais urgente. A chuva até pareceu aumentar.

Dei sinal, o ônibus parou e eu entrei. O rapaz continuou no ponto, esperando o Santa Isabel.

O barulho metálico da catraca do ônibus bateu como um gongo e me disse: “Viu? Você não é alguém melhor.”

Dobrei mais esse remorso e guardei junto aos outros. Espalhei umas bolinhas de naftalina, para que não mofassem com toda umidade da minha chuva eterna.

20 pensamentos sobre “O ponto

    • Às vezes a gente faz exatamente a mesma coisa que a personagem: acredita que só por ter remorsos e arrependimentos já estamos redimidos de nossos erros. E então aparece a oportunidade e agimos exatamente da mesma forma. De que vale o arrependimento, então, não é?

      Obrigada pela visita, moça! =D

  1. Que ótimo texto, mergulhei de cabeça, e me imaginei exatamente nesse ponto de ônibus, não só imaginei, como me deparo com esse ponto todos os dias, e infelizmente, sempre deixo passa oportunidades de redenção, não por querer, mas talvez por uma alienação, de momentos repetidos em que já acostumei a lidar, e na maioria de todas as vezes, por medo de me aventurar a mudar.

  2. O texto ficou maravilhoso. Adoro o jeito que você consegue passar todo ambiente não só na parte física, mas também o significado que ele consegue quando misturado com todos os sentimentos que tem ao redor. Daqui eu até conseguir ouvir o barulho da chuva, o carro passando, o som da catraca… Eu pelo menos, consegui sentir/imaginar tudo isso na pele.
    Muito bom o texto Deborah, continue postando com mais frequência, quem lê, certamente vai ficar muito contente (:

  3. Diferente da intensidade da chuva, seus textos são categoricamente leves e um tanto quanto gostosos de ler.
    Acho que todos imaginaram que você deixaria seu ônibus passar e ajudaria o desafortunado desconhecido do ponto.

    Mas aí você aparece com um final que justifica seus devaneios iniciais e eu me pergunto: “Sim, trata-se de uma escritora com um nível elevado de sensibilidade e coerência.”

    Acho que todos deveriam buscar letras assim, que, além de cativantes tivessem o simples poder de fazer sentido. E nesse caso, além de chover, sentido é tudo o que esse texto faz.

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