Remendado

letitgoAcordou com uma tristeza que não era natural dela.

Ainda deitada, tentou se lembrar do que sonhou. Não lembrou. Mas pelo vazio inconveniente que sentia, o sonho era mesmo o causador da melancolia.

Resolveu que não adiantava ficar se lamentando, espreguiçou e levou o vazio para fora da cama, alongando os membros.

Enquanto escovava os dentes se lembrou do dia em que encontrou o ex-namorado pela última vez. Eles ainda não sabiam que aquela seria a última vez que se veriam mas, depois do amor, repentinamente ela sentiu vontade de chorar. Não havia motivos para isso e nunca havia acontecido antes. Para que ele não percebesse seus olhos cheios de lágrimas o abraçou, até que conseguisse se controlar. Agora sabia que esse acontecimento, aparentemente inexplicável, fora sua intuição avisando-a de que tudo iria terminar.

Com um giro rápido em torno de si mesma, decidiu que aquele era um bom dia para usar o seu vestido favorito. Foi até o armário e começou a procurá-lo entre todos os cabides e prateleiras.

Há alguns meses, rasgou esse vestido ao tentar alcançar a prateleira de cima. Na ponta dos pés, com o corpo todo tenso e o braço esticado, teve um arrepio ao ouvir um som áspero vindo daquela peça de roupa tão querida e correu ao espelho para procurar o rasgo. O encontrou abaixo do braço direito, fácil de esconder por um dia, mas precisaria de conserto antes de ir para a lavanderia.

Recorreu àquela que nos socorre a qualquer hora, santa protetora dos fracos e oprimidos e salvadora dos carentes de colo e comida caseira: a mãe. Sua mãe ficou de consertar o vestido, que ficou rolando no ateliê dela por algumas semanas, sendo preterido por reformas que lhe rendiam algum dinheiro, até que um dia foi reencontrado, consertado e devolvido.

Ela agradeceu à mãe com um abraço e uns bombons e voltou para casa feliz com o vestido renovado. Mas já era inverno. E o pobre coitado ficou guardado até o calor retornar.

E então voltamos para o dia do sonho esquecido, da melancolia e do calor, onde ela estava tirando o vestido do cabide, com um sorriso de saudade no rosto. Vestiu-se, ajeitou os cabelos com as mãos, maquiou-se e calçou as sandálias.

Na hora em que foi arrumar a bolsa, seu cachorro pegou a carteira e correu para baixo da cama. Ameaçar não adiantou. Ela precisou se deitar de bruços e tentar tirar a carteira da boca dele, antes que se atrasasse para o trabalho.

Ali, com os braços esticados, o corpo todo tenso, ouviu novamente o barulho áspero. Primeiro arregalou os olhos. Depois suspirou desanimada e foi ao espelho para encontrar o rasgo. O remendo não aguentou aquela esticação toda e arrebentou inteiro, expondo a ferida no tecido, exatamente no mesmo lugar.

Foi nessa hora que aconteceu a epifania. Percebeu que nem tudo tinha conserto. Por mais que houvesse coisas que gostaria de consertar e guardar para a vida toda, tudo uma hora acaba e não há remendo que segure aquilo que devemos deixar ir.

Tirou o vestido junto com aquela tristeza que agora não fazia mais sentido e deixou os dois caídos ali no canto do quarto. Abriu o armário atrás de outro vestido que havia ganhado no final de semana. Ainda estava com a etiqueta. E era azul, longo e lindo.

Sorriu e o usou sem sutiã.

3 pensamentos sobre “Remendado

  1. Acho impressionante como seus textos sempre cabem no meu cotidiano. Estou mesmo nessa fase de deixar coisas materiais E sentimentais no passado. A alegria do meu 2012 foi encontrar seu blog, e faço questão de estender essa mesma alegria para esse ano novo.
    Aguardo ansioso, sempre, a atualização desse blog ^^

  2. Deka adoro os seus textos, o que mais me impressiona é como os finais são simples e geniais… “Sorriu e o usou sem sutiã.” Foi demais de mais uma ótima comparação, pena que já fui um vestido, mas me sinto bem de servir para outra pessoa, mesmo rasgadinho hehe.
    O mais bacana é que começo lendo por uma perspectiva e no final sempre tem algo que da um Rubber Soul incrível.
    Parabéns tem um fã e tanto agora.

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