Botando o filho no mundo

_Oi! Muito prazer! Antes de começarmos, gostaria que

soubesse que sou um grande admirador do seu trabalho e li todos os seus livros. Tenho particular preferência pelo segundo.

_Olha só! Que bom. Fico feliz.

_Bom, a partir de agora nossa conversa será gravada para facilitar minha redação mais tarde.

_Sem problemas.

_ Começando pela novidade: como foi lançar esse livro, o quarto de sua carreira?

_Ah, cada livro, cada texto escito, é como se fosse o primeiro. Parecem filhos: a gente faz e solta pro mundo. Não podemos querer controlá-los.

_Que interessante sua percepção… Eu também escrevo umas coisas, sabe?

_Imaginei. Jornalista, né…

_Ahahah ótimo senso de humor. Mas falava de obras autorais, mesmo. Escrevo umas poesias.

_Puxa, que legal! E por que nunca publicou?

_O que quer dizer com isso? Que só você escreve coisas dignas de serem publicadas?

_Oi? Não! Pelo contrário! Se você gosta de escrever, também deveria publicar um livro com seu trabalho.

_Isso nos leva para a próxima pergunta: vemos autores dizendo que põem sua alma em seus textos, que escreveram para se livrar de um sofrimento, outros que dizem que escrevem porque é o que fazem de melhor. E você? Por que escreve?

_Eu escrevo porque gosto.

_E muito bem, por sinal!

_Obrigado!

_Os seus fãs não se incomodam com essa sua pretensão?

_Desculpe… Pretensão?

_Sim! Foi rápido em aceitar o elogio, nem me contestou.

_Só estou agradecendo! E foi você quem me elogiou!

_E você acha que merece esse elogio?

_Me desculpe, qual é a relevância disso para a entrevista?

_Acho interessante colocar minhas impressões a respeito da personalidade dos meus entrevistados.

_Sei. Próxima pergunta, por favor.

_Tá certo… Esse protagonista enfrenta muitas dificuldades durante a infância, até se tornar um adolescente e encontrar o amor da sua vida. Você também foi criança e adolescente um dia. Quanto de autobiografia tem nessa história?

_Embora minha vida tenha sido um pouco… diferente da do protagonista, não é? Eu até poderia dizer que tem muito pouco de mim nele, mas todo escritor escreve de acordo com suas próprias experiências e não temos muito como fugir disso por motivos óbvios.

_Sei. E você acha que sua personalidade merecia ser usada como inspiração logo para um protagonista. Nem para ser um personagem secundário, o pai de alguém. Até o vilão, porque ninguém é perfeito, né?

_Olha, eu não estou gostando do rumo que isso está tomando.

_Prefere quando você pode controlar as informações que serão passadas? Isso é censura.

_Não é isso! Você está manipulando a entrevista.

_Eu sou jornalista. Tenho a obrigação de questionar as pessoas e confrontar a verdade.

_Isso já passou dos limites. A entrevista está encerrada. Escreva o que você quiser para essa sua revistinha de merda. Suma da minha frente.

_O senhor poderia ser um pouco mais receptivo com a imprensa. Seria bom para divulgar seus livros.

_Divulgar meus… Saia! Eu estou pedindo que saia. Se tiver que pedir novamente, EU vou te sair.

_Sabia que isso aconteceria… Seu sucesso está subindo à cabeça. E eu que admirava tanto o seu trabalho… Ah, um momento. Meu celular está tocando.

_Você pode atender enquanto anda para a rua.

_Bem, em todo o caso agradeço pelo seu tempo e sua atenção. Alô? Tenha uma boa semana, senhor. Alô? Opa! Oi, chefe. Sim, sim… Já o entrevistei. Se quiser ir adiantando a chamada, acho que pode ser: “Escritor prepotente é contra a liberdade de expressão”. Sim, sim. Logo estarei na redação. Abraço.

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