Carta ao homem do restaurante

“12 de outubro de 2012

Caro homem da mesa sobre sob o ventilador

Nos vemos todos os dias no lugar onde almoço.

Temos alguns hábitos parecidos: sempre sentamos nas mesmas mesas, nocê você no canto abaixo do ventilador e eu prefiro a mesa que fica encostada na pilastra. Sempre nos servimos de dois pratos: um para salada, outro com a refeição. E também sempre estamos com fones de ouvidos.

Será que gosta do mesmo tipo de Fico me perguntando se ouve o mesmo que eu.

Você é muito sério. Mas também é muito simpático com a moça da balança e com o rapaz do caixa. Gosto disso.

Já nos identificamos como frequentadores do mesmo ambiente. Certa vez nossos olhares se encontraram. Eu esbocei um sorriso e você acenou levemente com a cabeça. Nos cumprimentamos diariamente, desde então. De certa forma, me sinto bem em saber que você está em seu lugar. E quando você não está lá, na sua mesa, sinto um certo vazio.

Confesso que já tive vontade de me aproximar para uma conversa, mas sua ceriedade seriedade me intimida. Você parece muito confortável em seu silêncio, ao contrário do de mim. Além do mais é bem mais velho que eu. Tenho medo de enfadá-lo com minha imaturidade. Mas, não sei… só de olhar para você lá, quieto e concentrado em seu prato, sinto um impulso de ir conversar e acho que me sentiria tranquila em te contar tudo o que me aflige, sem medo de ser julgada. Acho que você me compreenderia.

Gostaria de ter alguém para quem falar sobre os meus medos e você parece a pessoa certa, com toda essa inteligência no olhar. Eu prefiro estar cercada de pessoas que conheço e, quando não estou, me sinto como se estivesse sendo observada e julgada por todos ao redor. Acho que poderíamos ser grandes amigos e teríamos muito o que commpar compartilhar um ao outro. O que é ridículo pois, como posso ver inteligência no seu olhar e imaginar toda essa amizade se nunca conversamos? Não é algo que seja facilmente explicado. Chamaria de intuição.

Ando me sentindo muito sozinha e acho que esse é o grande problema. E o engraçado é que… embora busque sempre estar cercada de conhecidos, mesmo quando estou com eles me vejo solitária, olhando para o nada, completamente voltada para minha mediocridade.
E acho que vejo a mesma solidão no seu olhar. Junto com aquela inteligência da qual falei. Talvez seja a consciência da nossa pequeneza na imensidão. Isso explicaria a inteligência, a solidão e o medo de desequilibrar a fragilidade das nossas conversas mudas.

Meu horário de almoço acabou. Beijos. Tenha um bom resto de semana.

Cordialmente,

A garota da mesa da pilastra.”

Enquanto eu fechava meu caderno e o guardava junto do celular, dentro da bolsa, o homem se levantou para ir ao caixa.
Percebi que eu ficaria logo atrás dele, na fila. Fiquei ali, segurando a bolsa junto ao peito. Por que eu me intimidava? Era só alguém com quem eu poderia dividir a mesa do restaurante e não ficar tão sozinha.

Ele virou distraidamente para trás e se deteve quando me viu logo às suas costas. Pela visão periférica percebi sua atenção voltada a mim e senti que iria puxar conversa. Sabia que bastaria um contato visual para que o encorajasse a inicar o diálogo.

Em vez disso, desviei o olhar e comecei a organizar os chocolates do balcão por cor e tamanho. Seja lá o que fosse aquela barreira de cristal delicado, eu não a partiria.

A vez dele chegou.

9 pensamentos sobre “Carta ao homem do restaurante

  1. Bom, creio que não preciso elogiar mais a qualidade dos seus contos e de sua escrita, pois penso que já deve estar patente que sou seu fã!😉
    Mas no caso deste conto em especial, enquanto lia, (inconscientemente) fiquei me imaginando no lugar do tal homem na mesa sob o ventilador, e ao final do texto, foi exatamente a (vontade) sensação que tive, (mas claro que, desejando que a tal barreira de cristal fosse partida).

    Finalizando, posso afirmar que, (com certeza): adoro fazer novas amizades, ouvir o que as pessoas têm à dizer e valorizo muito a intuição!

    Parabéns! =D

  2. Eu acho absurdo a facilidade que vc tem de escrever minha vida. E é inevitavel lembrar da frase que encabeça seu blog “Qualquer semelhança com a vida real é mera consciência.”

    Mais uma vez, e espero que não seja a última, tiro meu chapéu para o seu dom. Com as palavras? Não.
    O dom de saber viver.

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