O cheiro

O perfume não era ruim. Era agradável. Mas havia algo nele que a confundia.

Não era um bom momento para ficar confusa. Podia ouvir a multidão gritando seu nome, em algum lugar por trás daquela cortina de luzes. Só conseguia enxergar até o fim do palco. Além dos holofotes, tudo era um vazio cheio de vozes.

Em cima do palco os fogos de artifício explodiam, para a entrada triunfal, e a fumaça cobria os seus pés, fazendo parecer que pisava em nuvens. Foi bem essa a sensação que teve, quando entrou: como se estivesse flutuando, alheia. Bem longe dali.

A náusea estava aumentando e não era ansiedade pelo show que começava. Sabia lidar bem com ansiedade. Era outra coisa. Tinha a ver com aquele perfume. Não exatamente o perfume, mas o cheiro que estava por trás dele. Lembrava algo do pai, que havia morrido há alguns anos. Exatamente um ano depois da morte da mãe.

Os dançarinos faziam as evoluções finais. O próximo passo seria o cumprimento ao público e apresentação dos músicos. Ela já estava com o microfone de fala nas mãos. O que seria para o canto estava encaixado no seu rosto.

Era perceptível que alguma coisa estava errada. Ela sempre tivera um brilho intenso, que era captado até pelas fileiras mais distantes das grades do palco. Era conhecida pelo sentimento que transpirava em seus vocais e a dor que as canções ganhavam em sua voz. Mas naquele dia estava ausente. Como se houvesse esquecido tudo o que havia ensaiado mil vezes e repetido outras dezenas durante a turnê. Os olhos pairavam no ar, sem focar em nada. Apenas no que havia acontecido.

A euforia da multidão foi desvanecendo aos poucos, conforme percebiam seus movimentos desencontrados e lentos. Os dançarinos também pararam e até a música morreu. O silêncio se estabeleceu pesado, cobrando uma reação dela.

Ela passou a mão nos cabelos longos e sentiu o cheiro enjoativo mais forte nelas. O perfume que estava impregnado em sua pele misturava com o odor em seus dedos, provocando ânsias.

Ergueu os olhos para os holofotes e sua vista foi ofuscada. A lembrança voltou em turbilhão, de quando a luz do corredor feria seus olhos de criança através da porta do quarto sendo aberta, nas noites que o pai invadia o seu quarto. O mesmo cheiro enjoativo. O perfume não era o mesmo. Mas o cheiro…

Instintivamente olhou para o lado do palco que dava saída para os bastidores. O empresário fez um gesto de incentivo com as mãos. Naquela situação, o tal gesto a fez recuar um passo.

Agora o microfone em suas mãos lhe causava repugnância. Jogou-o no chão. Os dançarinos pularam para o lado, assustados com o gesto.

O empresário estava apavorado, vendo o prejuízo crescendo. Fechou o zíper da calça e acenou para que ela fizesse algo. Ela só conseguia encará-lo com nojo. O cheiro pareceu ficar mais forte. Dessa vez não pode evitar. Vomitou no palco.

Uma bailarina tentou ampará-la, mas ela se desvencilhou. Fugiu de tudo pela outra direção. Atravessou os bastidores correndo, saiu em um lugar cheio de carros estacionados. Ela não sabia para onde ia. Só queria estar longe dali.

Entrou em um táxi. O endereço saiu de sua boca quase que inconscientemente. Ouviu o motorista falar algo sobre conhecê-la de algum lugar, mas não ligou. Mal o táxi parou em frente ao cemitério, escancarou a porta e correu, enquanto o ouvia berrar que ela não havia pagado a corrida.

Só parou quando encontrou o túmulo da mãe. Ajoelhou nele e enterrou os dedos na grama. Finalmente chorou convulsivamente. Era quase um alívio, não fosse inútil. Não teria sido capaz de suportar um escândalo. Quando encontrou um pouco de fôlego, tudo o que conseguiu dizer foi:

_Ele voltou, mãe. Nós achamos que ele tinha morrido, mas o meu pai voltou.

Ouviu o som das sirenes estacionando no portão. Era hora de voltar. O show tinha de continuar.

5 pensamentos sobre “O cheiro

  1. E eu não tenho palavras para descrever como estou amando essa sua súbita frequência nas postagens aqui no blog. Acho muito digno =P

    Pq nada melhor para fazer sua segunda valer a pena, do que ler um texto de Deka Pimenta (olha, rimou -Q). E, sério, esse texto, com a mesma essência detodos os anteriores, que lhe emociona, que arrepia o corpo, que lhe prende até a ultima letra, o ultimo ponto final.
    Sério, como eu sei que tudo na vida tem um fim, ainda não estou preparado para o caso desse blog acabar. Simplesmente não saberia oq fazer, nem onde procurar um conteúdo de tão boa qualidade, como é oq eu encontro aqui.

  2. Texto denso, arrepiei em duas passagens, lembrei de Korn, de Amy, de Cazuza… Lembrei de uma HQ do Fábio Coala… A cabeça ainda tá girando aqui.

    Nem sou muito de palavrão, mas caralho que história boa.

    E, para variar, bem contada.

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