Balada ruim

Eu não estaria ali, não fosse a insistência das minhas amigas. Eu nem gostava do tipo de música que tocava naquele lugar. Mas, por outro lado, eu também estava cansada de discutir sobre os motivos pelos quais eu não queria sair de casa, então acabei cedendo.

Admito que não escolhi a roupa com tanta minúcia nem me maquiei com tanta vontade quanto faria normalmente. Eu não queria ir. Fazia algumas semanas que havia terminado meu namoro e só queria tomar meu sorvete em paz, enquanto assistia uma série qualquer.

Mas minha amiga insistiu. Disse que seria uma festa diferente, temática. O tema? “Sete Pecados Capitais”, segundo ela a ocasião perfeita para me animar. Yay. Eu estava explodindo de satisfação.

Buzinaram em frente de casa quinze minutos antes do combinado. Justo naquele dia ninguém se atrasou. E como eu me arrumei com descaso, também já estava pronta. Acabei descendo.

Assim que entrei no carro começaram as piadinhas sobre como minha cara de enterro só duraria até a segunda tequila.

Talvez tequila fosse exatamente o que eu estava precisando. Ou whisky. Puro. É mais dramático.

Mas o whisky teria de esperar. A fila estava imensa. Olhei para as minhas amigas com cara de “Sério?” Elas ficaram um pouco sem graça, mas logo começaram a dizer que valeria a pena. Aquele lugar era ótimo e sempre tinha homem bonito às pencas.

“Às pencas.” Eu realmente estava péssima.

Quando finalmente entramos, fui atingida por um bafo de fumaça colorida por luzes. Aquele ar viciado só piorou minha situação: me lembrava o dia em que nos conhecemos. Fui tomada por um medo sufocante de encontrá-lo no meio da pista de dança, mesmo sabendo que ele nunca estaria em um lugar daquele estilo.

Minhas amigas me arrastaram para o meio da multidão, enquanto uma delas ia ao bar buscar uma garrafa de alguma coisa. Aproveitei quando elas se distraíram para me refugiar no balcão. Fiquei no canto, só pensando que o pior de tudo era ouvir uma música que você não gostava e ela descrever EXATAMENTE o que você estava sentindo.

Lembrei que, no dia seguinte ao que nos conhecemos, eu nem estava esperando que ele me ligasse. Inclusive, eu tinha certeza que havia passado meu número errado. Mas ele ligou. E me convidou para fazer a coisa mais improvável que eu poderia imaginar: assistir a um espetáculo de dança. Foi inacreditável.

Achei mais inacreditável ainda, quando um cara chegou em mim. Sentou ao meu lado e veio com aquele papinho furado de que eu era linda demais para ficar escondida naquele canto do balcão. Nem me lembro do que respondi. Lembro só que ele ofereceu um drink e eu aceitei. Bebida eu não ia negar.

Eu já estava um pouco alta, quando ele tocou em minha mão e me conduziu para a pista de dança. Eu só conseguia pensar que sentia falta de quando meu ex segurava em minha mão, nos momentos difíceis.

O cara me segurou pela cintura e pressionou meu corpo contra o dele e eu lembrando do calor do corpo do meu ex.

Acho que ele pensou que a letargia do álcool era permissividade, porque ele segurou o meu rosto e se aproximou para o beijo. Eu nem reagi, porque me lembrei do quanto aquele gesto romântico era deslocado em uma balada: exatamente como meu ex fazia.

Mas aí os nossos lábios se tocaram. A partir disso as lembranças são muito nítidas. Lembro perfeitamente de quando me aconcheguei nos braços do desconhecido, da forma como ele acariciava meus cabelos enquanto me beijava e do braço me segurando com firmeza, pelas costas. E depois dos olhos castanhos me encarando por trás do sorriso sacana.

Esqueci todo o resto. O lugar, a música ruim, as amigas perdidas em algum ponto da pista cheia de fumaça colorida.

O que aconteceu depois, não importa. Só vale dizer que ele pediu meu número e eu não passei. Não que não seria bom vê-lo novamente. Mas é que aquele beijo me lembrou que existia um mundo de novas possibilidades, só esperando que eu escolha o que quero fazer. Até comecei a curtir a balada, porque aquele tipo de música era algo novo, com o qual eu não estava  acostumada. Uma nova possibilidade.

Às vezes precisamos perder completamente o rumo, para nos encontrar perdidos no meio da nossa preocupação em fazer os outros felizes.

Em tempo: o rapaz conseguiu meu número com uma das minhas amigas. Adoro quando minhas amigas me “sabotam”.

3 pensamentos sobre “Balada ruim

  1. Eu já disse, mas nunca, jamais me cansarei de repetir, da minha satisfação em te “encontrar” aqui na net. Seu blog, seus textos, seu dom com palavras…
    E essa temática, por coincidência do destino, é algo que eu estou vendo e vivenciando muito nesses ultimos dias. Você conhece o seriado “Being Erica”? Caso se interesse, lhe recomendaria conhecer, cada capítulos, das 4 temporadas, trata uma faceta distinta da personalidade do ser humano e como lidar com ela. Maravilhoso, apenas. A série? Tambem, mas me referia ao seu texto.
    Impressionante, e único, como vc consegue transformar a realidade em palavras. Sem enfeites, sem enrolações, apenas faz, e fica incrivel (in-crível / não-acreditável).

    Mais uma vez: Parabéns. Pode parecer egoismo meu, mas desejo que vc nunca pare de escrever =]
    Meu sonho de consumo? Comprar seu livro. Antes de Janeiro, farei meu pedido, com certeza.

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