Apenas

Ela se vestia como qualquer senhora da sua idade. Nela tudo era branco: as calças, a camisa de seda e os cabelos cortados em um chanel. Sem um fio de outra cor, apenas cabelos brancos. Entrou na livraria olhando ao redor, procurando algo ou alguém que a ajudasse.

O rapaz sentado na poltrona vestia camisa e calça social. Gravata não. O cabelo cuidadosamente penteado para o lado mostrava que não era do tipo ousado, que assumia riscos. Gostava de ficar ali sentado, apenas para fugir.

A mulher idosa passou pelo rapaz e se sentou ao lado de uma garota de vermelho, cabelos curtos e olhos azuis. Não as íris. Apenas as pálpebras. Estavam pintadas. Ela estava armada de caderno e caneta. Um perigo.

Logo o livreiro percebeu a oportunidade e foi atender a senhora. Ela se levantou e pediu apenas um único livro. Sem tirar os olhos do caderno, a garota de vermelho sorriu. A velhinha pedira Crônicas de Nárnia.

O cara do cabelo estranho olhava para a menina do cabelo curto, através da franja ensebada. Apenas olhava. Sacou uma bíblia e de vez em quando fingia ler. A garota fingia não ver.

O livreiro de óculos enormes foi ao computador consultar. Levou minutos, alguns reboots e um sorriso amarelo para admitir que estavam sem sistema, mas sabia onde o livro estava. Apenas torcia para que ele ainda não tivesse sido vendido.

A garota dos olhos azuis apenas escrevia sem parar. O cara da bíblia podia garantir isso. Ele mudou de posição para os olhares ficarem menos evidentes.

De jeans e camiseta sem estampa, o livreiro passou alguns minutos procurando o livro entre todas as prateleiras e a mulher apenas precisou ficar na ponta dos pés para encontrar o livro antes dele.

Ao que lhe entregou, ela agradeceu. Disse que iria se sentar e ele procurou uma poltrona vazia com os olhos. Encontrou apenas uma. Mas quando se voltou para lhe oferecer o braço e conduzí-la até lá, se surpreendeu ao ver que ela estava no chão.

Por um momento ele achou que ela havia caído. Mas suspirou de alívio ao perceber que ela apenas havia sentado.

O rapaz parou de ler a bíblia. A garota parou de escrever. Todos olhando a senhorinha confortavelmente instalada no chão. Alheia aos segundos de perplexidade que causou ao seu redor, ela apenas lia.

O livreiro foi atender outro cliente.

O rapaz desistiu da bíblia.

A garota se deu por satisfeita e  escreveu o final de sua crônica.

10 pensamentos sobre “Apenas

  1. MEU DEUS, eu nem sei como dizer o quanto vale a pena esperar pelo seu novo conto aqui, no “Pedra do Sapato”. Sério, quando eu vi que vc colocou aquela foto no twitter, apenas achei interessante, mas você conseguiu transformar um fato nem tão corriqueiro assim, em um texto, o que não deixa nem um pouco de ser algo surpreendente.
    E aqueles elementos surpresa, ai não sei como explicar, só sei que é incrivelmente delicioso saber que ainda existem pessoas como você, escritoras, no mundo de hoje, onde se saber a própria língua, a do país em que vc nasceu, é considerado um artigo de luxo.

    Enfim, parabéns, sério mesmo, seus textos são para mim como um brilho de luz nessa escuridão que é a sociedade e a realidade em que estamos inseridos =]

  2. Perfeito, tanto pelo estilo como pelo mote do conto.

    A expectativa, para mim, é uma das coisas mais abomináveis que existem. Quando se espera uma coisa, qualquer outra que venha a ocorrer, mesmo que não seja inferior, mas somente seja de natureza distinta, causa estranheza. Elimine a expectativa, e o ser humano está pronto para encarar cada uma das situações da vida como ela deve ser: encerrada em si mesma.

    Pessoas que esperam comportamentos e situações, e se perturbam quando suas expectativas não são atendidas estão a meio caminho de se tornarem pessoas que têm CERTEZA.

    Pessoas que tem certeza matam. Quanto mais certezas se crê que se tem, menos tolerante se fica. Em especial com quem não partilha de suas convicções.

    Como já disse Remarque: A tolerância é filha da dúvida. Não tenha certezas pré concebidas de nada e está no caminho certo para não ser intolerante.

    continue genial assim.

    bjs

    • Olha só, minha crônica criou um filósofo! hahahaha

      Concordo com você, André! A partir do momento que escolhemos não encaixar algo/alguém em nossos conceitos pré-concebidos (ficou redundante, mas whatever) nos abrimos a esta possibilidade e aprendemos com ela.

      Obrigada por comentar! =D

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