O melhor leitor de começos de livro

Numa das tantas viagens, ele se sentou ao meu lado, achando que sua poltrona fosse a da janela. Não era, mas ofereci. Caso ele fizesse questão….

_Não há problema, pode ficar.

Um cavalheiro.

Ao se acomodar, sacou o celular e pronunciou uma breve conversa em inglês. Pelo tom carinhoso da voz e a simplicidade das palavras que usou, supus que estivesse falando com a mulher.

Durante a primeira parte da viagem, eu dormi. E quando acordei, estávamos estacionados na parada e havíamos levado duas horas além do habitual, para chegar até ali. Véspera de feriado.

Ele disse que as companhias de aviação estavam com ótimas promoções para o feriado, mas os horários eram impraticáveis para quem tinha um expediente a cumprir. Tive que concordar.

Fiquei sabendo que ele não era brasileiro e tinha nacionalidade dividida entre o Oriente Médio e a Europa. Não lembro bem em qual das curvas da prosa, ele descobriu que tínhamos a literatura em comum. Eu como a aspirante a escritora, ele como apreciador.

Porém, rindo, ele confessou que lia muito mais antes de se formar e que, deste tempo, guardou apenas o hábito nunca sair de mãos vazias de uma livraria

_Agora leio só o começo dos livros que compro e logo os largo por outros compromissos, com cinco ou seis páginas lidas. Deixei de ser um leitor, para me tornar um colecionador.

Ele também disse que durante a vida toda morou em nove países, mas o Brasil foi onde escolheu se estabalecer e pretende viver para sempre. A minha pergunta óbvia foi “Por quê?”

_O oriente vive de lembrar as glórias do passado. A Europa está sempre preocupada com o futuro. Mas o Brasil vive o hoje como nenhum outro lugar.

Não consegui evitar o orgulho. Nem o breve lampejo que dizia “talvez seja justamente essa a fonte da maioria dos nossos problemas.”

Ele, engenheiro de telecomunicações, não é entusiasta da forma como as pessoas conversam hoje, através de telas e códigos binários. Ele é um homem de cartas. Escreveu muitas e adora o cuidado que o gesto representa. Ele escolhia o papel da carta e a tinta que usaria, quase tão bem quanto as palavras que a compunham. Agora a comunicação é muito mais automática do que humana. É mais um ato, do que um gesto.

Creio que tenhamos nos entendido bem menos do que achamos que entendemos. Mas quando entendeu que eu era escritora, disse que gostava de escritores.

_Escritores não perdem a imaginação. Vêem o mundo através da sensibilidade. Percebem coisas que os outros ignoram, voluntariamente ou não.

Lembrei de um livro que li, de um escritor aí, chamado Stephen King. Não gostei do livro. Mas a apresentação que o autor fez, valeu o preço de dez livros daquele: “Eu nunca perdi a capacidade de acreditar no que quer que fosse. Quando lerem os contos a seguir, leiam sabendo que quem os escreveu, escreveu acreditando naquilo que contava.”

Ou qualquer coisa parecida.

Não é pouco caso. É porque foi assim que eu acreditei no que ele disse. Talvez se eu reproduzir aqui a frase correta, vocês acreditem diferente de mim.

A conversa terminou em aviões e cinema, bem mais tarde do que haviam prometido a chegada prevista de nossas passagens.

Ele iria se encontrar com sua mulher, uma bela “latina” como ele mesmo se referiu, que não deixava em nada a desejar à Sophia Vergara. Também havia uma linda labradora dourada, no colo da mulher na foto.

Eu me despedi com estas palavras já se rascunhando na cabeça, pensando que talvez o companheiro de viagem, os livros não lidos e o presente sejam apenas uma desculpa, embelezada e bem menos real do que eu quero fazer parecer, apenas para que vocês acreditem no que eu conto.

11 pensamentos sobre “O melhor leitor de começos de livro

  1. Excelente, como sempre. Realmente, o viver o agora pode ser atraente, mas nao deixa de ser preocupante. Me lembra um amigo que dizia> O brasil é o melhor lugar do mundo para voce viver (morar, passear, habitar), porém é um dos piores para se residir, ou seja, ser cidadão, depender e usufruir (?) dos serviços do Estado, etc etc.

  2. Como se vive o presente sem saber de onde veio, e onde quer chegar?

    Excelente conto. E particularmente, já fui um bom leitor de começos de livros, mas aos poucos, a beleza das letras e seus significados começaram a fazer cada vez mais sentido, e me tornei um “viajador de livros” (sic), pois a cada nova leitura, viajo e interajo num local diferente.

    Sobre as cartas, aí está um prazer que quero resgatar. Outro dia resolvi escrever a mão num caderno velho, e qual não foi minha surpresa ao perceber que minha letra já não é tudo que foi, e que escrever apenas duas páginas me cansou mais que o “habitual”.

    Parabéns Deka! Além de uma excelente leitura, motivou-me mais ainda a resgatar este hábito. Beijos.

  3. Ultimamente tenho tido alguns problemas para me expressar com palavras. Tenho utilizado fotografias e alguns desenhos. Mas eu gosto mesmo é quando uso palavras. Elas são – eu acredito – o que eu tenho de especial.

    Mas ultimamente tenho tido os tais problemas. E é em períodos como esse que eu começo a nutrir as caraminholas na minha cabeça – o que eu quero da vida? o que eu estou fazendo com a minha vida? eu presto pra que?

    Para resolver essas situações é sempre mais ou menos assim: eu leio várias coisas, ouço várias músicas e tenho várias conversas estranhas. Até que em algum lugar, uma combinação de palavras trás alguma ideia para a minha cabeça. Uma ideia nem sempre completa, mas às vezes interessante. E eu consigo voltar.

    Hoje foi esse texto aqui.

    Parabéns e obrigada, Dekita🙂

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