A zona

Vejam bem amigos, eu reconheço todo o belo trabalho que os nossos gorvernantes desempenham em seus respectivos gabinetes.

Concordo que não deve ser fácil apartar todas as brigas dos assessores pela melhor fatia da propina, comparecer a todas aquelas reuniões, selecionar todas as viagens a serem feitas, assinar projetos de lei, agredir todos aqueles repórteres e ainda sorrir para as fotos no final do dia.

Então eu, como boa cidadã eleitora que sou, tento ao máximo facilitar a vida deles.
Pago minhas contas, arco com todos os impostos, pago INSS, peço Nota Fiscal Paulista e sou mesária voluntária nas eleições.

Calma.

Tem explicação.

Quando minha família se mudou para a cidade onde moro, a zona eleitoral mais próxima era a – já na época lotadíssima – perto da casa da minha avó. Então, quando cheguei à maioridade eleitoral (que curiosamente é dois anos antes de o brasileiro ser responsável por seus crimes e quatro anos antes de ser considerado emancipado) fui tirar o meu título de eleitor com o endereço da minha avó. Supostamente, o fato de a zona eleitoral estar abarrotada de gente deveria desviar a atenção do meu nomezinho, para que eu não fosse chamada para trabalhar nas eleições.

Porém o tiro saiu pelo ladrão e aquela zona lotou demais. Resultado: os títulos sobressalentes foram transferidos para uma zona B, vazia de tudo. Não deu outra: na eleição seguinte, minha convocação chegou à casa da minha avó.

Cheguei a trabalhar um ano só, naquela zona eleitoral. Logo abriu uma praticamente ao lado da minha casa. Se eu estivesse na zona super lotada, não transferiria meu título para não “chamar a atenção do sistema”, mas o que é um pum pra quem já tá cagado?

Portanto me dirigi novamente ao cartório, munida de meu título e novo comprovante de endereço, para realizar a transferência. A senhorinha que me atendeu (que inclusive havia sido inspetora na escola onde fiz o segundo grau) me perguntou se eu queria trabalhar nas eleições e eu disse que, se me dessem sua palavra de representante da população, de que eu trabalharia na escola próxima de casa, eu iria com gosto.

E foi assim que me tornei voluntária do sistema eleitoral de nosso país. A história até seria digna de horário reservado para propaganda eleitoral gratuita, como exemplo aos demais cidadãos deste Brasil varonil, se excluíssemos as vezes em que os marmitex dos mesários chegaram azedos e não ganhamos dinheiro para comer fora. E também se eu concluísse a narrativa por aqui, mas não.

Voltamos ao ponto onde eu disse que faço tudo para facilitar a vida de nossos políticos: pago minhas contas e impostos, anulo meu voto em todas as eleições, tiro título de eleitor aos 16, me ofereço como voluntária para trabalhar na festa da democracia, mas o sistema… ah, o sistema… Consegue se complicar sozinho.

Na primeira eleição que eu trabalharia na zona nova, minha convocação não chegou. Precisei ir até o cartório eleitoral retirar. Isso porque eu sou voluntária e sabia que, pela data, já deveria ter chegado em minha casa. Ok, fui lá buscar, trabalhei, primeiro turno, segundo turno, acabou. Passam-se dois anos.

Finalmente chegamos ao ano de 2012. Mais precisamente ao mês de julho, em que eu aguardo a chegada de mais uma convocação que não veio.

Quando no final de uma sexta-feira, encerrando expediente às 17h30, recebo uma mensagem do meu pai, avisando que a convocação chegou me convocando a aparecer ao cartório eleitoral naquele dia, ÀS 18H.

Novamente, vejam bem, amigos: trabalho na mesma cidade onde moro e onde voto, mas era-me impossível atravessar a cidade e chegar no cartório em meia hora.

A cereja do bolo, que eu deixei para o fim por motivos óbvios, é que a convocação não chegou à minha casa, porquê chegou na casa da minha avó.

Sim. Essa mesma, anterior à minha transferência de zona eleitoral, anterior à eleição que trabalhei e votei com endereço novo e atualizado.

Hoje, no dia em que desconjuro esta crônica, compareci ao cartório para tentar atualizar pela terceira vez o meu endereço e pegar minha convocação, antes de ir para o trabalho. Não deveria ter me surpreendido, mas me surpreendi quando descobri que a bagaça só abria ao meio dia. Meio dia. Me-io-di-a. MEIO FUCKING DIA. E fechava às 18h.

Queridos governantes. Eu pago minhas contas e cumpro minhas obrigações de cidadã. Eu quero votar. Eu sou mesária voluntária. Estou facilitando a vida de vocês. Por que tanta burocracia nesses corações amargos? Por que vocês também não facilitam a minha vida e enviam minha convocação para chamar a mim – que estou me oferecendo para trabalhar de graça – na minha humilde residência de proletária? É pedir muito?

E quando eu já acreditava que a saga teria chegado ao fim, compareci ao cartório eleitoral, para retirar minha convocação. E, quando questionada à respeito do endereço de envio da mesma, a atendente me mostra o endereço da casa da minha avó. Sim. A mesma casa da qual a minha avó já se mudou há seis anos e cujo endereço EU JÁ HAVIA ALTERADO.

Mas e daí, Brasil? Eu sou brasileira! Moro num país tropical, abençoado por Deus. E bonito por natureza – mas que beleza! Me armei do meu melhor sorriso, preenchi novamente a atualização de endereço (que é feita à mão) e assumi de uma vez por todas que não há nome melhor para uma ZONA eleitoral.

Neste ponto os deixo, curtindo nosso “jeitinho brasileiro”, engolindo a seco (ou com cachaça) a ideia de que somos cheios de gingado malandro. Sim, engulam essa. E não engasguem, que é feio.

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7 pensamentos sobre “A zona

  1. Senti pena de você. Tudo aqui no Brasil é tão institucionalizado, que gera MUITA burocracia. Tem coisas que poderiam ser mais fáceis, mas seguem a mesma regra de 398120391 de anos atrás, gerando atraso, demora… Se quiser, confere meu blog também. Abraço

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