Presente

Eram três da tarde, quando entrou na loja estranha.

A semanas passava quase diariamente por aquela porta estreita e espiava, curioso, pelo corredor escuro e coberto de relógios por todos os lados.

Tinha vontade de entrar lá, algum dia, para dar uma “olhadinha”, coisa que faria em qualquer loja. O engraçado é que o impulso sempre era reprimido pela consciência de que não precisava do que era vendido ali, embora o único relógio que possuía era o que aparecia na tela de descanso do celular. Inconscientemente sabia que aquele corredor vendia mais do que relógios.

Por isso só conseguiu entrar naquele dia, naquele horário.

Por alguns instantes ficou parado na porta, observando todos aqueles mecanismos, alguns de madeira, outros com pêndulos, outros digitais. Diversos deles pendurados do teto, cobrindo o forro quase que completamente, como estalactites que vibravam marcando os segundos.

Curiosamente, alguns relógios pareciam contar os segundos com mais lentidão, outros mais rapidamente e, ainda assim, todos estavam sincronizados na mesma hora.

Estava como sob encanto, observando todas aquelas formas e o mistério entre o tempo de cada um deles, quando um senhor de cabelos e bigodes brancos tocou o seu ombro. O susto foi tão grande que quase gritou.

O homem sorriu, divertido.

_Desculpe, não pretendia assustá-lo. Posso ajudar em algo?

O rapaz respirou fundo, para recobrar o controle.

_Sim. Eu gostaria de saber por que alguns relógios parecem ir mais rápido do que outros.

O relojoeiro fez-lhe um sinal para que o seguisse e explicou:

_Porque o tempo não é percebido do mesmo jeito por todas as pessoas.
A dúvida permaneceu, então ficou em silêncio para aguardar a continuação da resposta.
_O tempo não passa da mesma forma para quem está em uma UTI de um hospital, ou aguardando uma resposta, como para quem precisa dar uma má notícia ou está de férias.
_Mas todos os relógios continuam marcando a mesma hora, mesmo contando o tempo em velocidades diferentes.
_O tempo é um só, para todos, queira ou não.

Quis dizer que aquilo não era possível, mas o corredor chegou ao fim e ficou sem palavras. No fim do túnel, a loja era muito maior do que pensava. Na verdade era um galpão de proporções inimagináveis, para aquele quarteirão. Os relógios continuavam espalhados por todos os lados, no chão, nas paredes, sobre as mesas dispostas aleatoriamente pelo espaço. Várias ferramentas e chaves cobriam as mesas, todas de tamanhos diferentes e não havia uma única que fosse igual a outra.

Só então o relojoeiro parou e o encarou.

_E você? Do que precisa?
_Eu vim comprar um relógio de pulso…

O senhor idoso voltou a sorrir.

_Mas não é disso que você precisa. Vamos, me diga.

Descobriu que não sabia do que precisava.

_É que… Hoje vou me encontrar pela última vez com minha amiga. Nós crescemos juntos e ela vai se mudar para outro país. Embarcará nessa madrugada. Vou me sentir muito sozinho, sem sua companhia, mas é o sonho dela. Não sei o que fazer.

O homem apoiou a mão no queixo, pensando. Depois se dirigiu até uma das mesas que estava próxima à parede e abriu uma gaveta. De lá tirou dois relógios de corrente, ambos de ponteiros, um deles anguloso e prateado. O outro era redondo e vermelho de cobre. Pacientemente, lustrou e deu corda nos dois. Mostrou-os ao seu cliente.

_Este prateado é o seu. Aperte este botão na parte de cima, quando achar que deve. Este redondo você dará de presente para sua amiga. É o que ela está precisando neste momento.

O velho colocou o segundo relógio em uma caixa colorida e entregou o prateado para o cliente, que pagou e voltou a tomar o seu caminho, em direção à praia. Ficou lá, sentado no banco de sempre, de frente para as ondas, que iam e vinham alheias a sua vontade.

Abriu a caixa da amiga, para ver o relógio e constatou que nele o tempo passava muito rápido. Seria bom para ela, que estava ansiosa com a viagem. Mas não entendeu porque os ponteiros do seu também corriam tão depressa. Ele não queria que a hora dela ir embora chegasse.

Um táxi estacionou às suas costas e ela desceu. Descabelada e com roupas descombinando, como se lembrava. Chegou dando um soquinho em seu ombro, mas não disse “oi”. Apenas se sentou ao seu lado. Ela tomou a iniciativa.

_Vou sentir sua falta por lá.

Como resposta, estendeu-lhe a caixa. Ela adorou o relógio, o abraçou disse que o levaria consigo para o resto da vida, onde quer que estivesse.

Ele ficou olhando para o seu, até a hora em que o sol começou a se pôr no horizonte. O sorriso dela, diante daquele espetáculo, era o mesmo de muitas vezes. E pensar que, ainda assim, nenhum deles nunca se cansara de ver o pôr-do-sol juntos.

Ele não queria chorar então sentiu que finalmente era a hora de apertar aquele botão.

Com um suspiro agradecido, viu que o tempo parou.

6 pensamentos sobre “Presente

  1. Lindooooo texto!!
    Situações onde o tempo para mesmo sem
    Parar…. Aquela necessidade de eternizar, segurar o momento.
    Voce traduziu tao bem isso! Parabéns!

    Bjooooooo

  2. O que eu mais gosto nos seus textos é poder ver a cena toda, como em um filme. E é isso que sempre me encantou nas leituras. Um livro, texto, que não consegue me levar para dentro dele não é tão bom…
    Os seus textos me transportam pra um universo paralelo.
    Que maravilha seria se pudéssemos eternizar momentos, parar o tempo e aproveitar um segundo a mais…
    Por isso acho importante a gente saber aproveitar a vida da melhor forma possível e com coisas realmente importantes. Perdemos tempo demais com banalidades!
    Mais um texto fantástico Deka, parabéns!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s