O pijama

Logo cedo, expediente recém-iniciado, alguns funcionários ainda chegando e tudo o que se ouvia pelo escritório era o som das teclas sendo digitadas freneticamente.

A moça da cozinha passou com a garrafá de café, trazendo aquele cheiro maravilhoso e inebriante para o ambiente.

Ele levantou de seu computador e foi até a mesinha pegar a sua dose de ânimo, quando sua colega de trabalho chegou.

Por um momento ele não acreditou no que viu e deixou café fervente cair em sua mão. Aí voltou para a realidade rapidinho. Reparou que ninguém digitava e sua colega se dirigia calmamente para sua própria mesa, cumprimentando todos com um “bom dia” alegrinho, como se nada estivesse acontecendo.

Ele voltou para sua mesa, que ficava ao lado da dela, com a caneca cheia de café, sem saber como começar a conversa.

Ela começou.

_Bom dia!
_Bom dia! Tudo bem?
_Tudo sim!
_Que bom… Por que veio trabalhar de pijama?
_Não é pijama…
_Mas parece um pijama.
_Sim! Não é uma gracinha?
_É bonitinho mesmo, mas…
_Mas…?
_Nada. Gostei dos ursinhos.
_Obrigada.

Cada um se voltou para o próprio computador. E ele soltou uma risadinha. Ela quis saber o motivo.

_Só você mesma, para vir trabalhar assim.
_Ué… O que tem?
_Ah, eu não teria coragem de sair vestido desse jeito.
_Por quê? Os ursinhos são fofos, o tecido é macio…
_Pijama também é tudo isso, mas ninguém usa na rua.
_Não sei o porquê, pois é muito confortável.
_Por um motivo muito simples: pijama é roupa de dormir. Não de trabalhar.
_Bom, se quer usar a lógica, responde por que você acha que faz mais sentido usar pijama em casa, quando já vamos descansar e, no trabalho, onde vamos cumprir tarefas e prazos o dia todo, temos que usar roupa cheia de botão e salto alto? Não seria mais lógico usar uma roupa que fosse mais confortável, pra melhorar a produtividade?

Ele não soube se ficou sem resposta por não ter o que dizer, ou por conta do fato dela aparentar não fazer a mínima ideia de como as coisas funcionavam. Mesmo que ele não soubesse exatamente o que essas “coisas” eram. Então resolveu ser irônico.

_Ah, claro! Então vamos todos vestir nossas pantufas e ir trabalhar de pijama!
_Não ia ser maravihoso? Aposto que as pessoas seriam bem menos estressadas, sem sapato apertado e terno sob sol a pino.

Ela sorriu triunfante, como se ele finalmente tivesse compreendido o sentido da vida. E voltou a trabalhar, cantarolando a música que saía de seus fones de ouvido. Ele ficou tão irritado, que emudeceu o resto do dia.

No fim do expediente, saíram juntos rumo ao ponto de ônibus, como sempre. Ela falando com o namorado no celular, ele sem saber onde escondia a cara das pessoas que passavam rindo e apontando sua amiga.

Quando chegaram ao ponto de ônibus, um menino passou por eles, cutucou a mãe e gritou: “Ah lá, mãe! Por que ela pode usar pijama na rua e eu não posso usar na escola?!”

Ele tentou pela última vez:

_Tá vendo? Está dando mau exemplo para as crianças! Agora o menino vai ficar achando que pode usar pijama fora de casa!

Ela suspirou desanimada, juntou os dedos na testa em um gesto de enfado e silabou:

_Primeiro: não é proibido, muito menos crime sair na rua de pijama. Segundo: aposto que essa mãe nunca deixou o filho usar a roupa de super-herói para ir passear. E por fim, mas não menos importante, NÃO É PIJAMA!

_Óquei, óquei! Você vai perder o seu ônibus, olha ele vindo!

Ela lançou um olhar fulminante, antes de subir os degraus do coletivo.

Ele continuou no ponto e quando percebeu que já passavam vinte minutos da hora que o seu ônibus deveria ter passado, resolveu ir andando para casa.

No caminho, o sapato começou a machucar o dedão do pé direito. Tentou mancar um pouco, para ver se aliviava, mas quando chegou em casa, descobriu que sua unha estava encravando. Tentou cortar e aplicar remédio. Não funcionou.
Acordou com o dedão maior do que o próprio pé. Teria de ir trabalhar de chinelo, naquele frio.

Chegou no trabalho e correu para sua mesa, sem cumprimentar ninguém. Logo sua amiga chegou, dessa vez sem pijama.

_Bom dia!
_Bom dia.

Liga o computador, pega café, volta para a mesa. Ela sorri e aponta para os pés dele.

_Pantufa bonita, amigo.
_Não enche!

3 pensamentos sobre “O pijama

  1. Que coisa meiga!Se o mundo não fosse tão ‘certinho’ não teríamos problemas …
    Aproveitem que o Dia dos Namorados esta chegando e dê um pijama pro seu amado!a dica fica aí … e a dica da Deka fica pra todos pensarem …nos seus limites!!Ótima!!

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