Pausa Semibreve

Sentou-se novamente em frente ao piano, pousou as mãos no teclado e ficou imóvel por horas.
Exasperado, quase rasgou as páginas de partituras que vinha compondo nos últimos meses, mas preferiu descontar sua frustração nas teclas, em uma cacofonia carregada de ódio.

Levantou suado, emaranhando os dedos nos cabelos e andando em círculos pela sala ampla.
Tentou ir à varanda e assoviar um trinado ao seu canário, que o respondeu cantando a plenos pulmões. Não ajudou. A música continuava entalada em sua garganta e não havia palavras ou notas que expressassem o que pretendia.

Acendeu um cigarro, mas depois lembrou que a mulher odiava o cheiro da nicotina nos móveis, então aproveitou para caminhar sob o sol gelado de outono.

Ouviu sons produzidos pelo tráfego, cães latindo, donas de casa cantarolando e até algumas músicas que já haviam sido tocadas a exaustão, mas nada o inspirava.

Porque essa precisava ser a melhor canção que já havia escrito. As anteriores foram elogiadas e criticadas pelos grandes nomes da arte, conseguindo um certo prestígio para si. Mas nenhuma era uma obra-prima. Aquela tinha de ser a música de sua vida.

Quando despertou estava em casa novamente e resolveu voltar ao piano.

Acrescentou algumas notas improvisadas, tentando fazer pegar no tranco. Usou o trinado de seu canário, testou alguns stacattos que notara nos latidos.

Não… ainda não havia alcançado a eloquência da simplicidade que buscava.
Faltava essência, algo solitário, mas ainda assim em paz consigo.

Aquilo que estava entranhado em todas as pessoas que conhecia, um apelo surdo. Mas ignorado. Não era brutal, mas primitivo.

Prosseguiu preenchendo as pautas com notas e mais notas, que não lhe diziam nada. Apenas soavam. Prosseguiu em uma escala crescente, cada vez mais aguda, cada vez mais complexa e cada vez mais cheia de nada.

E ao fim do último compasso pontuado por uma pausa, viu atendida a súplica muda de sua alma.

No silêncio daquela pausa encontrou a resposta que procurou a vida inteira.

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6 pensamentos sobre “Pausa Semibreve

  1. Caramba, vi agora que talvez a Obra Prima seja um fardo. Buscá-la é difícil, requer empenho e talento, realizá-la não é tão melhor, logo virão as cobranças nas novas obras, todas enchendo a todos de expectativas. Será a nova obra-prima dele? E não sendo começará a decadência. Outra coisa que o texto fez foi me dar vontade de gritar, de fazer barulho, de ser a voz da personagem.

    Credo, Deka. Você escreve bem demais =P

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