Fada

Houve, certa vez, um fenômeno curioso em certa colônia de lagartas, que procuravam uma maneira de se proteger dos predadores.

Com medo de alçarem vôo, ser caçadas por pássaros e tornarem-se alvos fáceis por conta das cores de suas asas, começaram a encruar sua metamorfose e tornavam-se qualquer coisa entre um casulo e uma larva.

Com isso, a população rastejante permaneceu abrigada em seu tronco de árvore, sempre convencendo as crianças a seguirem seu exemplo e não se metamorfosearem completamente. Surpreendentemente, seu sistema reprodutor se desenvolvia e a espécie sobreviveu e cresceu, embora incompletas, reproduzindo-se entre si mesmos.

Até o dia em que um ovo foi botado virado para o céu. E quando a larva eclodiu, a primeira coisa que seus olhos turvos viram, foi a luz do sol atravessando duas folhas da copa da árvore.

A lagartinha ficou ali, vidrada, olhando a dança dos raios com o vento, e o seu reflexo nas folhas, até os olhos lacrimejarem. Depois conseguiu enxergar o azul e as nuvens. E então sua mãe chegou e a colocou na posição certa, olhando para baixo.

Passou o resto da sua vida com aquela imagem na cabeça: o céu, o sol, o vento… Queria atravessar as folhas e viajar por toda aquela beleza, mas a maior parte do tempo era obrigada a olhar para baixo. Cresceu mais triste do que as outras larvas, pois sentia que o seu mundo não se limitava à reles sobrevivência. Ela queria descobrir coisas e conhecer o céu estrelado. Algo lá no fundo, lhe dizia que mundo não era apenas a árvore.

Ouvia lendas sobre lagartas que voavam e sabia que isso era apenas conto de fadas. Chegava a sonhar que se tornara um desses seres mágicos, mas acordava para a desilusão da busca pela melhor folha sem se queixar.

E quando entrou na adolescência da vida das lagartas, seu corpo começou a mudar, uma fome fora do comum lhe acometeu e logo sentiu a necessidade de encontrar um lugar calmo para repousar.

Fora alertada pelos mais velhos sobre os perigos desse período durante toda a sua existência, onde ninguém sabia ao certo o que aconteceria se ela se deixasse levar, mas todos tinham certeza de que não era nada bom, ou os antepassados não viriam sufocando a metamorfose a tanto tempo.

Até chegou a se controlar por algum tempo, mas logo levou em consideração que toda uma vida grudada ao chão não seria melhor do que nunca mais poder ver o céu. Tentou conversar com outras lagartas, mas seus amigos fizeram de conta que não ouviram, os mais velhos simplesmente ignoraram e seus pais ficaram preocupados com a possibilidade de alguém ter ouvido sua filha dizendo aquela heresia.

Então, cansada de se sentir estranha, começou a subir o tronco da árvore, buscando um lugar para ficar sozinha. E lá no alto, na ponta do galho sob o calor do sol, se sentiu em paz. Sozinha, finalmente pôde descansar e quando a sonolência a dominou viu sua pele começar a endurecer, antes que perdesse completamente os sentidos.

Despertou um bocado dolorida. Percebeu-se presa e notou que um invólucro a envolvia. Começou a fazer força e logo a parte sobre sua cabeça se rompeu. Quando se acostumou com a luz, percebeu que estava de cabeça para baixo. Fez mais força e aos poucos foi conseguindo aumentar a fresta e se arrastar para fora da crisálida. Nunca esteve tão apavorada. Não conseguia entender o que estava acontecendo e todas as dores que sentia a enlouqueciam. Quase se arrependeu de não ter lutado contra sua natureza.

Quando finalmente conseguiu sair, um cansaço tão grande a dominou, que novamente adormeceu sob o sol. Tornou a acordar e tomou um susto: asas grandes e coloridas se estendiam em suas costas. Suas patas eram finas e seu corpo leve, prontos para desbravar a imensidão.

Quis gritar de alegria e o fez. Gritou para que todos a ouvissem dizer que as lendas eram reais e as lagartas poderiam, sim, voar. Disparou em direção aos galhos mais baixos, cantando sua alegria, espalhando as boas novas.

Finalmente era feliz e descreveu círculos em direção ao sol, como sonhou em toda a sua vida. Vida aliás, que mudara completamente, e precisaria ser redescoberta. Mas ela não ligava.

Curiosamente, nenhuma lagarta notou sua transformação. Ignoraram sua presença e continuaram olhando para suas folhas, totalmente indiferentes ao que para elas não era possível.

Sorte que isso é apenas uma história.

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