Bêbado

Eu o vi dentro do bar do outro lado da rua.

Meu caminho era adiante, mas atravessei a rua quando o vi cambalear e sentar na sarjeta para não cair.

Ele segurava o copo com os braços apoiados nos joelhos e o encarava. Não me viu chegar até que me sentei ao seu lado.

Teve um sobressalto com minha aproximação, ergueu os olhos ébrios em minha direção e os vi entristecerem-se quando me reconheceu. Moveu os lábios algumas vezes, antes de conseguir balbuciar:

_Nunca quis que me encontrasse nessa situação.

_Nem eu.

Ele soltou um riso nervoso.

_Não está aqui para sentir pena de mim, não é?

_Nunca sinto pena de você. Ponto.

_Então o que veio fazer aqui?

_Eu poderia ter ido embora pra casa. Mas vi um velho amigo caindo de bêbado e resolvi vir aqui lembrá-lo de quem é.

_Não quero lembrar porra nenhuma.

E tomou mais um gole de cachaça.

Um dos homens que estavam dentro do bar passou por nós, deu uma gargalhada sarcástica e proferiu:

_Essa aí é novinha, heim?

Ele me olhou amargurado, como quem dissesse: “viu porque eu não queria que você se envolvesse com o meu mundo?”

_Por que não vai cuidar da sua vida?

Me levantei e ofereci a mão para meu amigo se levantar. Ele se esforçou, mas tornou a cair.

_Me deixe aqui. Já estou acostumado com isso.

Liguei para o táxi e, enquanto o esperávamos chegar, pedi um café forte no balcão. Dois. Eu também iria precisar de um. Ele vomitou na calçada. Pedi uma garrafa de água também.

Tornei a me sentar ao seu lado e estendi a garrafa de água. Ele lavou a boca e depois tomou alguns goles calado. Peguei os cafés.

_Viu? Finalmente conseguimos tomar um café juntos.

Eu não ri. Ele ficou sem-graça e voltou a ficar em silêncio. O táxi chegou.

Precisei pedir ajuda ao motorista para colocá-lo dentro do veículo.

_Se ele vomitar no meu carro, cobro mais caro.

O ajeitamos no banco de trás e ele dormiu o caminho todo. Fui indicando o endereço ao taxista.

Peguei a chave no bolso da sua calça, abri a casa e novamente pedi ajuda para colocá-lo lá dentro. Paguei o dobro da corrida, por ele ter me ajudado a carregar meu amigo.

Ele roncava com gosto, estirado no sofá e fui abrir a geladeira para ver se havia algo que ele pudesse comer. Encontrei arroz, frango e batatas. Um jarro de água, uma lata de cerveja pela metade e meio limão. O açúcar também estava lá dentro, pois havia tanta louça na pia, que as formigas tinham tomado conta da cozinha.

Comecei a preparar a canja e enquanto a panela de pressão chiava, lavei toda a louça que estava ali. Limpei tudo para tentar diminuir a quantidade de formigas. E logo ouvi os ruídos de quando ele acordou.

Apareceu com a cara inchada, esfregando o olho direito e tossindo feio.

_Quando foi que você veio pra minha casa?

_Não se lembra do que aconteceu?

_Achei que tivesse sonhado que te encontrei em um bar e agora estou com medo de lembrar o resto.

_Para de ser idiota. Além do mais, iria se lembrar, se eu tivesse dado pra você.

Ele riu e perguntou as horas. Era bem tarde, mas eu tinha perdido o sono.

_Vai tomar um banho. Você está fedendo. Está quase pronto.

Quando ele voltou, os pratos de canja estavam esfriando na mesa e a cozinha estava limpa.

_Por que veio aqui?

_Achei que ia ser bom pra você dormir em casa, pelo menos uma vez essa semana.

_Não mude de assunto. Eu já te disse pra não tentar me erguer, se um dia me visse caído.

_Você não caiu. Você se derrubou.

_Bela amiga você é.

_Sou sua amiga o suficiente para te matar, caso um dia esteja sendo devorado por um câncer e não suporte o sofrimento. Mas isso é você e não um câncer. Não vou te ajudar a se matar.

Ele pegou um cigarro e acendeu.

_O que está fazendo, seu idiota?

_Conseguindo um câncer.

Arranquei o cigarro da mão dele e o apaguei em seu braço. Ele saltou, assoprando a queimadura.

_Isso dói, sabia?

_Não vou deixar que se entregue assim. Toma logo a sua sopa e vai dormir.

Ele rosnou um “não estou com sono”, mas tomou a sopa.

Eu não o olhava, não sei se por respeito à sua dor, constrangimento, desprezo pela atitude, decepção ou tudo isso ao mesmo tempo.

_Como chegou a este ponto?

_Você sabe.

Sim. Eu sei.

Ele terminou o prato e disse que eu poderia ir. Não precisava me preocupar em lavar. Eu liguei para o táxi e disse que ia ficar olhando até ele terminar de lavar louça. Ele resmungou um pouco, mas limpou tudo.

_Sabe… Eu sou o velho aqui.

_Não sou sua babá, engraçadinho. Mas às vezes um pouco de realidade pode te fazer bem.

Fui embora sabendo que tudo havia sido inútil. E que ele preferia que eu não tivesse feito nada daquilo. Mas fui embora, apenas.

Poderia deixar muitas coisas para trás. E já deixei. Mas se ele, algum dia, quisesse voltar à tona, queria que soubesse que poderia contar com a minha mão para levá-lo à margem.

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