O próximo ponto

Sei lá, ela só estava ali sentada no banco do ônibus, do lado da janela, sem grandes expectativas a respeito daquele fim de tarde. Nada demais. Coisa básica, normal.

Só que, entre uma curva e um farol fechado, quatro caras deram sinal para o ônibus e assim que ele deu partida anunciaram o assalto.

Enquanto um deles segurava uma arma nas costas do motorista, com instruções claras sobre agir normalmente e não parar o ônibus antes do próximo ponto, o segundo pulou a catraca para tirar tudo o que houvesse de valor dos passageiros e o terceiro fazia “a limpa” na caixa do cobrador.

Assim como os demais usuários de transporte público ali presentes, ela entregou a carteira, celular e relógio sem levantar o rosto e já estava achando que tudo ia ficar bem quando o bandido pediu sua aliança de noivado. Aí não aguentou mais, começou a chorar e entregou a aliança.

Encolheu-se na sua janela, soluçante e lacrimosa, querendo que tudo passasse bem rápido, quando o quarto rapaz, que estava na parte da frente do ônibus, percorreu o veículo, como se estivesse inspecionando o serviço dos comparsas.

Pelo jeito ele era o chefe de todos e, ela encolheu-se ainda mais, parou exatamente ao lado dela. Sentindo a boca do estômago se contrair, ela não conseguia forças para erguer os olhos, quando tomou o maior susto da sua vida:

_CARALHO, não acredito! É você mesma, Magrela?

Surpresa com a reação do ladrão, encarou-o assustada e sua cabeça explodiu quando reconheceu nele um colega de classe, da época do colégio.  Aliás, desde criança ele já dava sinais de rebeldia, não respeitando nenhum professor ou autoridade escolar e guardando uma implicância particular para com ela.

_Meu Deus, Fuminho! Não acredito que é você!

Pensou em perguntar o que ele fazia ali, mas se deu conta do nível de idiotice da pergunta antes de pagar o mico. Então ele se sentou ao seu lado.

_Caralho, mina! Tá vindo de onde?

_Estou voltando do trabalho, indo para casa.

_Tá trampando com o que?

_Sou publicitária. Estou trabalhando em uma agência lá no centro. E você? Quer dizer…

Enrubeceu. Não conseguiu escapar das armadilhas das conveniências sociais. Ele riu.

_Larguei a faculdade de administração mês passado. Enjoei daquela porra. Mas não tô trampando, como pode ver. Mas me conta, que tem feito da vida? Largou o merdinha?

_Vixe, nem te conto! Ele me botou um par de chifres, o desgraçado! Um ano depois da formatura do colégio.

_Filho da puta! Demorou, mano! Me fala onde esse cabaço mora, que vou lá dar um apavoro nele, mano! Ninguém faz isso com amiga minha!

Ela se assustou.

_Não, não! Magina! Não precisa fazer nada, não. Já superei isso.

_Certeza, mano? De boa, vou lá e ninguém fica sabendo do que aconteceu, cê não tem nada a ver com isso, não.

_Não, pelo amor de Deus, não. Está tudo bem agora! Estou noiva de outra pessoa, vamos nos casar no final do ano.

_Eu sabia que esse merdinha não prestava, Magrela. Te avisei. Mas como assim “noiva”? Noivado sem aliança?

Ela olhou sem graça, para o cúmplice que roubava os passageiros do último banco.

_Bom… Eu tinha, né…

Ele levantou fulo.

_Botuja, seu nóia, vem aqui!

O outro rapaz, um tanto ressabiado, voltou para o banco dela, com uma sacola cheia do butim.

_Tu roubou essa mulher aqui? Responde, viado!

_Roubei, você disse que…

Foi calado com um tapa na cara.

_É por isso que não consegue nada na vida, sua besta. Devolve a muamba dela! Vai, vai, vai!

O rapaz atarantado estendeu a sacola na direção da garota, que se apressou em procurar suas coisas lá dentro. Demorou um pouco para achar a aliança, enquanto o amigo voltou a se sentar ao seu lado.

_Agora que já passou um tempo legal, fica sussa contar… Eu era apaixonadão por ti, na época da escola. Tretei com vários manés do colégio, por sua causa.

Ela o encarou devagar, com os olhos arregalados.

_É sério isso?

Ele não respondeu, mas sorria com certa timidez e a arma segura na mão direita, entre as pernas. Ela sentiu o rosto queimar.

O comparsa que marcava o motorista anunciou a proximidade do ponto. Todos os outros guardaram as sacolas com o produto do roubo dentro de mochilas e se prepararam para descer.

Ele se levantou e gritou no ônibus.

_Aí, quero ninguém gritando até a gente estar longe, heim? Um pio e eu atiro em todo mundo.

Olhou para ela e deu uma piscadela cúmplice.

_É só pra assustar. Vou matar ninguém não – sussurrou.

No que a quadrilha começou a descer do ônibus, ela juntou as coisas e desceu junto a eles. O amigo estranhou.

_Ué? Não tava indo pra casa? Tá longe ainda!

_Eu estava, né. Mas você fez questão de mostrar para todo mundo que me conhecia! Iam me fazer te identificar.

Ele gargalhou e abraçou seus ombros.

_Ih, carai! Verdade! Aí eu ia ter que mandar te matar!

Ela riu um riso nervoso e disse que ia esperar o próximo ônibus. Ele insistiu que ela aceitasse que ele lhe pagasse um táxi. Ela não quis e ele jurou que não ia usar o dinheiro do roubo. Então ela aceitou.

Entrou no táxi vestindo a aliança no dedo, sem entender bulhufas do que havia acontecido.

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