Na estação

Era um dia normal na estação de trem.

Fora de horário de pico, sem grandes atropelos e correrias. Apenas os passageiros de ocasião, agindo como se não pertencesse àquela realidade, ou expressando toda a sua rebeldia contra o sistema pisando na faixa amarela.

Um mendigo desce a escada degrau a degrau, até chegar na plataforma, onde deposita sua enorme bolsa e fica aguardando o trem como os demais, porém comportadamente apoiado em sua bengala.

Um homem de mochila, uma mãe com seu bebê e um casal adolescente chegaram antes do trem despontar ao fim da linha.

Todos se aglomeram gradativamente na direção de parada das portas, enquanto o veículo estacionava devagar.

O mendigo aguardou que todos entrassem e segurou a porta, para que a mãe com o bebê entrasse, sorrindo divertido para a criança. Só entrou quando o sinal de fechamento das portas soou.

Ficou em pé na ponta do corredor, avaliou sua platéia no trem repleto, mas não lotado, e assim que teve início a partida começou o seu discurso, em tom ensaiado e baixo, representando humildade.

_Boa tarde, meu senhor, minha senhora. Peço desculpas por te incomodar sua viagem. Mas tô aqui porque sou morador de rua e preciso de dinheiro pra comprar alimento. Eu podia tá matando. Eu podia tá roubando…

Nessa altura da lenga lenga, o homem da mochila olha de um lado para o outro furtivamente e, ao certificar-se de que não há seguranças no perímetro, se levanta, saca uma caixa de chicletes da mochila e começa a berrar em dó maior:

_Atenção, pessoal! Tenho aqui na minha mão a novidade no mercado de chiclete, pessoal! É o novo Tchuplá de cereja, pessoal! Com recheio de banana nanica com canela, pessoal!

Os passageiros, assim como o mendigo, se assustam com a brusca interrupção. Ele até tenta continuar com seu falatório, mas sua voz é subjugada pelo ambulante, que se aproxima da sua ponta do trem.

_Pessoal, lá fora o pacotinho é um real, pessoal! Mas aqui no trem eu faço três por dois, pessoal!

Alguém acena para o ambulante, ele para, efetua uma venda e o pedinte resolve aproveitar a brecha:

_Eu peço a ajuda de você com uma moedinha de cinco, dez centavos. Preciso pra comprar um par de sapa…

_Olhaí, pessoal! Novidade no mercado! Tchuplá de cereja, recheado, três por dois, pessoal!

Já contrariado, o maltrapilho coça um piolho e resolve esperar o vendedor ir para o outro lado. E tenta retomar a ladainha:

_Desculpa tá te atrapalhando sua viagem, mas o único jeito de conseguir dinheiro é pedindo, porque perdi meus documento na rua. Me ajuda com uma moedinha de cinco, dez centavos pra comprar um marmitex. Eu nem par de sapato tenho pra usar…

Mas o vagão do trem acabou e lá se volta o cara dos chicletes:

_Três por dois, três por dois, pessoal! Tchuplá de cereja com recheio de banana nanica com canela, pessoal, novidade no mercado, pessoal.

O andarilho lança um olhar furibundo para o ambulante e levanta a voz, tentando se sobressair, mas aí seu discurso digno de pena perde força.

Os dois se encaram e, cada vez que o mendigo toma ar para falar, o vendedor começa a gritar, sempre levando a melhor na disputa por atenção e já tendo vendido quatro pacotinhos de chiclete, até que o maquinista anuncia a próxima estação.

Nesse ponto o andarilho surta e resolve partir pra ignorância: dá uma bengalada na caixa de chicletes do ambulante, espalhando os pacotinhos no chão do trem:

_Cala a boca! Não tá vendo que eu tô tentando pedir esmola honestamente, aqui?

O vendedor fica petrificado, sem saber se pisca, se respira, ou recolhe os chicletes, sob as bufadas de ar do mendigo possesso. Então o segundo se volta para o resto do trem:

_Alguém aqui vai me dar moeda ou não?

Duas ou três mãos trêmulas se estendem. O maltrapilho joga a bolsa para trás e recolhe as moedas sem mancar uma única vez, enquanto o vendedor parece despertar e recolhe a mercadoria espalhada.

O mendigo volta para a primeira porta, ainda encarando o inimigo puto da vida. Saca dois reais, joga na mão do ambulante e vocifera:

_Dá esse chiclete aqui.

Para na porta e um engravatado tampa o nariz, fazendo uma careta:

_Que é? Se tu não puder tomar banho vai feder do mesmo jeito, ô babaca!

A porta se abre e somente o mendigo sai, deixando sua audiência atônita. Antes do sinal de fechamento ele ainda solta entre dentes:

_Ninguém respeita nada nessa porra. Por isso que esse país não vai pra frente!

E se misturou na multidão indiferente, em mais um dia comum na estação de trem.

5 pensamentos sobre “Na estação

  1. Muito bom mesmo! Belo texto… desperta a atenção e a curiosidade do leitor enquanto fica na expectativa do final da história, o que é surpreendente! Parabéns!

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