Um conto extraordinário

Ela não teve uma vida extraordinária.

Cresceu em um bairro sossegado, de uma cidade do interior, brincando com os meninos da rua, porque na rua não tinha tantas meninas assim e as que tinha, preferiam brincar de passa anel do que de polícia e ladrão.

Os meninos riam de suas sardas e da boca grande, mas ela botou apelidos em todos eles, então estavam quites.

Todos estudaram na mesma escola, durante a infância, mas se separaram no colegial. Os meninos foram estudar no centro da cidade e ela foi transferida, junto com as meninas, para o colégio do bairro, então tentou se aproximar delas. Mas elas preferiam se maquiar, enquanto ela ouvia Ramones. Deixou pra lá.

Com esse afastamento brusco, um dos meninos começou a chamar sua atenção. O problema é que era justamente o mais quieto e tímido deles. Passavam horas sentados na calçada conversando, mas ele não tomava iniciativa. Logo, a rua toda estava engajada na aproximação do potencial casal, só que ela cansou de esperar e roubou um beijo do moço.

Namoraram por todo o período do colegial.

Foi a melhor amiga dele, a primeira mulher dele, a maior conselheira dele e quem sempre arrastava ele pra fora de casa, porque se deixasse, ele mofava. Foi até madrinha de formatura dele. Mas aí ele já estava estranho.

O namoro entrou em crise, sem saber ela fez outra mulher sofrer, então descobriu que o namorado estava ciscando em outro terreiro e aí já era. Afundou tudo, parou de esconder as sardas e pintou o cabelo de ruivo.

Acabou o colégio solteira e em vez de faculdade, entrou para o grupo de teatro. Foi quando descobriu que não precisava de namorado. De sexo sim. Mas namorado, não.

Transformou-se em criança, boneca, louca, prostituta, em homem e em mulher. Amou o palco mais do que amou a si mesma, e os aplausos embalaram muitos sonhos seus. Queria ser atriz para o resto da vida. Queria, mas sabia que seria difícil.

Nada é fácil para quem ama a arte.

Continou trabalhando, sendo muitas pessoas, recebendo pouco dinheiro, sofrendo muitas vidas, mas a dela só tinha graça quando ébria.

Em um desses porres, mais ou menos na semana em que se perdeu na cartela de pílulas, uma dose a mais de vodca a fez degringolar e não lembrar da camisinha. E duas semanas depois soube que seu corpo não era mais apenas seu.

Com o teste positivo na mão, teve que contar para a família, com quem ainda vivia. Passou por tudo que o protocolo da situação exige: o medo, o desespero, a insegurança, as brigas, os julgamentos, as dores, os enjôos, as perdas de roupas, os seios insuportavelmente pesados, o amor, a espera, a novidade, os chutes, as lágrimas de emoção, a primeira imagem do ultrassom, a ansiedade, os presentes, a aceitação da família, o chá de bebê e o pavor do parto.

Só ela sabe a mistura de pânico, emoção, felicidade e agonia que passou naquele dia.

Com o filho nos braços, fez algo que não fazia há muito tempo: agradeceu a Deus.

Repensou toda a sua vida e encontrou um novo sentido nela. Antes de estar ali, amamentando seu filho, nunca seria capaz de se imaginar amando tanto. Não deixou de ser quem era, mas parece que nunca existiu antes daquele bebê. Dedicaria sua vida ao teatro, mas agora largaria tudo satisfeita, para proteger aquela coisinha indefesa.

Que coisa extraordinária…

9 pensamentos sobre “Um conto extraordinário

  1. Uma amiga me mandou pra ler e….
    essa história sou eu, de verdade. Mudando algumas informações mas sou eu escrita e cuspida, desde primeiro namoro, os personagens que ja fiz nos palcos e a gravidez, até a ultima frase “…Dedicaria sua vida ao teatro, mas agora largaria tudo satisfeita, para proteger aquela coisinha indefesa”
    Parece ser uma biografia minha.
    Achei lindo! até parece que você já conhecia-me.
    Será?! rs..

      • =) Obrigada! Mas não sou extraordinária…
        Na verdade fui deixando a vida me levar. Cheguei até onde você parou no conto, agora vamos ver por onde continuarei andando rs…
        Depois desse conto senti que te conhecia de algum lugar, agora descobri (te deixei uma mensagem no face)

        Bjos

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