Tempo

Chegou em casa carregando todo o peso do dia nas costas.

Foi deixando as peças de roupa pelo caminho ao chuveiro. Quis prolongar o banho, mas se lembrou que fazia dias que não dormia horas suficientes. Então desligou a contragosto e ficou olhando o vapor sair pelo vitrô.

Enxugou-se, desembaçou o espelho com a toalha e ficou encarando a própria palidez com olheiras profundas. Tinha mesmo um ar cansado. Era melhor comer algo rápido e ir dormir logo, pois o dia seguinte seria cheio.

Foi para a cozinha sem se vestir. Praguejou por ter esquecido de colocar o congelado no microondas durante o banho, para economizar tempo. Cinco minutos faziam muita diferença.

Acompanhava impaciente os segundos regressivos do visor e, embalado pelo som do aparelho, fez a retrospectiva da sua vida até ali. Não chegara nem perto de onde queria estar, com aquela idade. Era do tipo que via cada dia como um dia a menos de vida. Apenas via a morte se aproximando, sem ter evoluído.

O microondas apitou.

Levantou-se e tirou a embalagem. Correu para a mesa, pois queimava-lhe os dedos. Colocou-os na boca para aliviar a dor, enquanto buscava garfo e faca.

Mastigou amargamente o jantar. Não tinha tempo pra nada. Sua rotina se resumia a enfrentar o transporte público e sua multidão de mal humorados, tentar cometer a menor quantidade de erros possível no trabalho ao mesmo tempo que torcia para chegar logo o fim do expediente, voltar para casa, tomar banho, comer e desmaiar em um sono sem sonhos, que parecia durar cinco minutos.

Até ali não tinha conseguido comprar um carro, ainda morava em um apartamento caindo aos pedaços, em um bairro decadente. Não fora promovido uma única vez, nem ao menos ganhara um aumento.

Se via perseguido pelo relógio. Do jeito que a coisa andava, não teria tempo de fazer tudo o que precisava, muito menos tudo o que queria.

Desejava ser pai, mas naquela idade, naquela situação, não sabia se conseguiria. Nem tinha conhecido a mulher de sua vida!

Foi para a cama e ignorou o pijama. Não ia perder tempo precioso se vestindo. Além do mais, estava calor. Se jogou na cama ainda desfeita. Desde quando não abria a janela pra arejar o cômodo? Talvez uns dez dias… No final de semana foi visitar a mãe e, no domingo, ficou o dia todo colocando as contas em dia. Nem abriu as janelas. Teria de fazer isso logo, ou começaria a ter problemas com a alergia.

Deitado de barriga para cima, sentia o peso das coisas que precisava fazer sobre o peito. Na verdade, descobriu, tinha medo de morrer. Não queria partir sem deixar sua marca no mundo. Um filho, uma mulher que o amasse, ao menos. Mas era tão complicado encontrar alguém, hoje em dia. Não tinha tempo nem para si mesmo, quanto mais para se dar ao luxo de investir em um relacionamento. E mulheres exigem demais. Exigem atenção.

Mentalmente, foi montando o cronograma do dia seguinte (Antes de ir para a estação preciso ir à farmácia, aproveito e compro um lanche na padaria. Vou comendo no caminho. Na hora do almoço vou ao correio.) enquanto tentava se lembrar onde foi parar aquela nota fiscal que o supervisor pediu hoje cedo.

Olhou no relógio e era tarde. Praguejou. Precisava dormir logo.

Talvez se ouvisse um pouco de música… Não! Não precisava de mais problemas com a síndica. Precisava falar com ela sobre o vazamento na área de serviço. E sobre o vizinho que usava sua vaga, sem autorização.

Esfregou os olhos, repetindo como um mantra:

_Dorme… dorme… dorme…

Mas o seu cérebro não parava, por um minuto sequer. Todos aqueles pensamentos começaram a cair sobre ele e já não conseguia mais se mover na cama. Eram tantas coisas para lembrar, tantas coisas para organizar, tanto a se fazer… Todas essas responsabilidades, e a falta de tempo até para viver, o paralizaram e começaram a sufocá-lo.

A respiração começou a lhe faltar e abriu os olhos, tentando encontrar alguma coisa para se segurar, qualquer coisa que o levasse a superfície daqueles pensamentos. Movia os braços de um lado para o outro, lutando por uma lufada de ar e a agitação acabou por derrubá-lo da cama.

Precisava chegar até a janela. Juntando as últimas forças, virou de bruços e começou a se arrastar pelo chão do quarto, passando por cima de roupas e sapatos espalhados. O suor corria pelo seu corpo, a visão estava escurecendo.

Não pôde continuar. Levou as mãos à garganta, em um último gesto de autopreservação, tentando desesperadamente aspirar, em vão. O peso da vida o imobilizara.

Morreu esmagado sob o peso dos próprios pensamentos.

9 pensamentos sobre “Tempo

  1. Como disse o Vinícius, qualquer mínima identificação com esse texto é maior do que a gente gostaria. Mas por fim, respiro aliviada. A vida ainda não me tem pesado tanto…
    (Ps: Eu disse que voltava.)

  2. O engraçado é que a vida ou é isso, ou, quando se é “bem sucedido”, fica semelhante ao descrito no Livro Psicopata americano.

    Eu mesmo, nâo consigo dormir de jeito nenhum se, antes de apagar a luz, não olhe as horas, para calcular quanto tempo terei para dormir.

    Geralmente, é menos do que desejaria.

    Como disse no meu comentário em outro post: certo é o Dom Carlos.

  3. Trágico é saber que todo mundo vai se identificar com alguma parte deste conto, mas em compensação o conto é uma excelente oportunidade de refletir e deixar de ser o personagem…

    Parabéns pelos seus contos, você escreve muito bem…

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