Caixas

Abri a primeira caixa com um leve cheiro de mofo, onde estavam guardados meus ursos de pelúcia. A primeira reação foi uma certa ternura, vindoura dos meus tempos de infância. A segunda foi uma crise de espirros. Esses ursos agora vão secar as lágrimas de outra garota.

Na outra caixa encontrei muitos presentes que ganhei em uma festa de aniversário. Vários deles nunca saídos das caixas. Guardei apenas os cartões com os votos. Uma coisa ou outra separei, por afeição ou utilidade futura.

A terceira caixa doeu mais. Brinquedos velhos, álbuns de fotos, livros infantis. Todos me trazendo uma enxurrada de lembranças que eu gostaria que tivessem ficado encaixotadas com eles, em algum lugar bastante fora do meu alcance. Mas, secando o rosto com as costas das mãos, olhei para a minha boneca favorita e não tive forças de colocá-la para doação. Alguns objetos ali me trouxeram algo que quase não sinto da minha época de criança: saudade. Então também separei.

Acabei com as caixas e fui para a estante. Fui acompanhando com os dedos lombada por lombada, os livros que estavam alinhados ali, retirando os meus: presenteados, comprados, emprestados e nunca devolvidos – lembrei do conselho de um grande professor, já falecido: “Livro não se empresta, nem se devolve.” Empilhei todos eles ao meu lado e, dessa vez não pude resistir ao impulso de perder tempo folheando-os.

Os livros foram os que sempre estiveram ao meu lado e presentes nos melhores momentos de um certo passado. A maioria deles lido mais de uma (duas, três, quatro) vezes. Cada um me trouxe um momento à frente. Cada um deles me lembrou meus sonhos infantis de, um dia, ter algum com o meu nome escrito na capa.

Então me sentei no chão e comecei a limpar cada um daqueles objetos e, novamente, guardá-los em caixas e mais caixas.

Dizem que na hora da morte a vida passa diante dos nossos olhos como um filme.

Algo muito semelhante acontece quando você vai se mudar.

A diferença é que dessa vez o filme é alimentado por coisas há muito guardadas no fundo dos armários e que vão ressuscitando – às vezes apenas por alguns segundos – saudades, risos, desejos e tristezas.

E ao mesmo tempo que você volta a sentir todas essas emoções, também separa aquilo que não te serve mais, das coisas que pretende levar consigo para a nova vida.

Afinal, é isso o que somos, não? Apenas as coisas que deixamos para trás e tudo que continuamos acreditando.

9 pensamentos sobre “Caixas

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