Verão

O calor era tão grande que o silêncio reinava sob o sol a pino.Os animais se escondiam debaixo das copas das árvores, buscando por qualquer réstia de sombra que pudesse lhes proporcionar frescor. Muitos se deitavam nas águas rasas do riacho para refrescar e todos evitavam subir nas pedras, tão quentes que era possível ver a quentura subindo em ondas inquietas.

A madeira das árvores antigas, e já mortas, expandia e estalava com o calor. O ar estava cálido e parado, como se todo o bosque estivesse envolto em um espaço fechado como uma estufa.
Seria impossível continuar suportando aquilo, se próximo ao início da tarde uma leve brisa não começasse a balançar as folhas da vegetação.

Algumas horas mais tarde e a brisa já havia se transformado em vento, que forçava as árvores a curvarem seus troncos a seu gosto, todas envolvidas na mesma força e no mesmo ritmo.

Os pássaros tentavam lutar contra as forças da natureza, mas o esforço apenas os mantinha voando no mesmo lugar, até que desistiam e se deixavam planar exaustos, a favor do vento.

Toda essa força e velocidade acabou juntando as nuvens em um ponto invisível àquela distância. Porém logo, na ponta do horizonte, elas começaram a surgir, avançando em uma rapidez crescente.

Em seu caminho começaram a se unir e a ficarem cada vez mais escuras. E pesadas. A ponto de, dessa vez, era o vento quem parecia ter que se esforçar para arrastá-las pelo céu inicialmente azul.

Azul este, que agora desaparecia atrás das nuvens escuras. Elas não tardaram a tapar completamente o sol e, na superfície da terra, esse movimento era traduzido em uma vasta sombra, que cobria tudo com sua escuridão.

Na direção das nuvens, grossas colunas de água eram visíveis, fazendo as montanhas mais distantes desaparecerem momentaneamente, atrás de cortinas esbranquiçadas, uma a uma, cada vez mais próximas.

Alguns pingos grossos chegaram antes da tempestade, atingindo a grande folhagem, uma pedra, um tronco caído, o topo de um formigueiro. Os animais começaram a correr para seus esconderijos, sob as raízes ou dentro dos troncos das árvores, nos buracos entre as pedras e até cavados no chão. O estrondo provocado pela força da chuva se aproximava cada vez mais.
Foi possível ver a chuva vindo, com sua cortina de água que avançava, encrespando o leito do riacho, antes tão liso e calmo. Alguns pingos eram tão grossos, que chegavam a arrancar algumas folhas das copas.

A tempestade enfim caiu lavando tudo, cada canto escondido daquele bosque e fustigando as pedras com suas gotas, que no início, evaporavam antes mesmo de tocá-las, tão quentes estavam. Não houve raios, não houve trovões. Apenas a água, pesada e forte.

O cheiro de terra molhada subiu, trazendo o alívio a todos que ali habitavam. O riacho transbordou, diminuindo suas margens e atingindo os pés das árvores que o rodeavam.
Mas a chuva se foi, assim como veio. Os pingos diminuíram de intensidade até pararem completamente, poucos minutos depois de ter começado. Foi levada pelo vento para lavar o calor de outros lugares.

Com o silêncio, os animais voltaram a se aventurar para fora, avaliando o estrago que o dilúvio fez em suas moradias e já começando a refazer o que tinha sido desfeito. Erguendo pequenos gravetos, recolocando pequenas pedras, reabrindo túneis que desmoronaram com as águas, todos se empenharam em reconstruir tudo como era antes.

A vida tinha de continuar.

Anúncios

Um pensamento sobre “Verão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s