A ceia

Ao conferir a despensa, enumerando os ingredientes e mantimentos que seriam necessários para a ceia de natal, notou a falta de dois itens essenciais: nozes e creme de leite. Resolveu fazer uma revista pela fruteira e armário dos doces, reabastecendo o estoque para a família que viria no final de semana.Estava muito calor, lá fora. Então se vestiu com a regata e a calça mais confortáveis que encontrou, prendeu o cabelo em um coque na nuca e conferiu se os óculos escuros estavam na bolsa. Notou que as chaves do carro sumiram, então correu todos os cômodos até encontrá-las no banheiro, rindo sozinha sem conseguir se lembrar de como foram parar lá.

Pegou as chaves, a bolsa, o celular e a carteira. Entrou no carro e dirigiu para o supermercado mais próximo.

Censurou-se por ter achado que ia encontrar uma vaga a plena ante-véspera de natal. Rodou as ruas próximas, em busca de um lugar para estacionar. Deixou o carro o mais longe possível, mas tentou evitar o estresse de fim de ano, pensando que talvez fosse bom caminhar um pouquinho sob o sol.

Se arrependeu na esquina. Já podia sentir sua cabeça e ombros sendo queimados, implacável e intensamente. Mas era preciso enfrentar. Precisava terminar de preparar a ceia e, até a véspera chegar, a falta de ar condicionado seria o menor de seus problemas.

Confirmou sua teoria ao chegar dentro do mercado e vê-lo apinhado de gente. Pessoas corriam de um lado para o outro, fazendo compras de última hora e os estoquistas corriam atrás, repondo os produtos que sumiam rapidamente das prateleiras.

O mais agilmente que pôde, correu entre as gôndolas, à procura de suas necessidades e já estava quase chegando aos caixas, quando passou por uma enorme montanha de panetones. Lembrou-se que o último foi comido pelo filho, antes de ir para a casa do amiguinho, então pegou mais três, pois natal sem panetone, não era natal.

Tomou coragem de enfrentar a fila do caixa e perdeu quase uma hora, esperando sua vez.
Finalmente em posse de seus suprimentos, caminhou ladeira acima, em direção ao carro.

Tentava se lembrar da receita do cream cheese da vizinha, pois poderia ser uma boa sobremesa, quando notou, vindo no sentido oposto, uma garotinha de mãos dadas com o pai. As roupas de ambos eram muito velhas e com alguns furos, porém limpas. Os dois usavam chinelos e, diferentemente de todos os outros transeuntes, pareciam não ter muita pressa.

Mas o que realmente chamou sua atenção, foram os olhos da menina, que não desgrudavam da sacola em que carregava os panetones.

Raciocinou tão rápido quanto pôde, mas não o suficiente para agir antes que seus caminhos se cruzassem, então precisou voltar alguns passos e tocar no ombro do pai:

_Tome, moço.

Ele olhou para as sacolas e hesitou, balbuciou algumas desculpas pela filha e disse que não precisava, mas ela insistiu.

Ele sorriu os dentes brancos e agradeceu, desejando a ela um feliz natal. Ela voltou pelo caminho do mercado para comprar mais panetones.

Ficou pensando o que foi que a impulsionou a fazer aquilo e não chegou a conclusão nenhuma. Não era dada a arroubos altruístas, não participava de campanhas solidárias, muito menos se considerava ativista. Certamente diriam que foi o tal espírito natalino e já imaginava o tom sarcástico que usariam, emendando um discurso sobre a hipocrisia da humanidade.

No fim, chegou a conclusão que não importava. Talvez não fosse realmente o tipo de pessoa que atua em prol do próximo e menos favorecidos. Mas aquela garotinha teria panetones no natal e o pai dela tinha um belo sorriso.

Para ela, isso já tinha feito a diferença.

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