Marcas de Guerra

Queridos, a vida nada mais é do que o conjunto de histórias que você contará aos seus netos.Muitos contarão orgulhosos sobre o dia em que, dirigindo escondido a Harley-Davidson do pai aos doze anos, foram fugir da polícia e,em uma derrapagem brusca, acabaram ganhando aquela cicatriz na panturrilha. Estas marcas de guerra servem para nos mostrar fortes, intrépidos e aventureiros aos nossos descendentes. E gostaremos de relembrar, com os olhos perdidos de nostalgia, as pequenas aventuras que nos deixaram literalmente marcados.Eu tenho uma cicatriz dessas. Não na panturrilha. Na coxa. E ela realmente veio do escapamento de uma moto, que eu posso facilmente transformar em Harley-Davidson para meus netos.

O caso é que eu, como a criança pacata e totalmente adversa a atividades físicas que fui, tenho dificuldades enormes em encontrar marcas para contar histórias e, quando as tenho, as histórias não são realmente empolgantes, me obrigando a recorrer às minhas habilidades literárias para torná-las mais interessantes.

A prova de que sempre preferi utilizar-me da inteligência, em vez da agilidade, é o osso do pé direito, que foi quebrado aos meus onze anos, no perigosíssimo ato de descer um degrau. Veja bem, amigos, era um degrau de quase quarenta centímetros de altura e, ao dar o meu salto digno de um praticante de parkour, o pé esquerdo se meteu a pisar no chinelo do pé direito, fazendo o segundo se torcer e em vez do pouso fazer “ploft” fez “croc”, seguido de uma dor lancinante no dedinho.

Na hora não contei para minha mãe. Fiquei com medo de levar uma surra, naquela lógica das mães zelosas. “Para de correr, menina! Se você cair e se machucar, te junto do chão na base dos tapas!” Portanto aguentei a dor em silêncio e sem chorar até o cair da noite quando, na hora do banho percebi o inchaço escuro se formando no peito do pé. Pânico, grita a mãe, conta a história do chinelo, que de tão imbecil não colou, faz compressa e espera até o dia seguinte para ir ao hospital.

No dia seguinte fomos ao ortopedista e enquanto ele examinava meu pé inchado, eu torcia secretamente para estar mesmo quebrado, ter que usar gesso e os amigos da escola poderem assinar. O diagnóstico das chapas foi claro: osso do dedo mínimo trincado. Dez dias de tala, dez dias de gesso.

Foi exatamente neste ponto que começou minha tragédia. Uma tragédia bem conhecida por muita gente, chamada família super-protetora. Na época, eu e meus pais vivíamos na casa ao lado do meu avô e minha tia, que possuem uma prodigiosa carreira em cobrir familiares de cuidados, redomas de vidro, plástico bolha, espuma acrílica e etiquetas de “frágil”.

Partindo do ponto de que com a tala eu não podia encostar o pé quebrado no chão, foi necessário adquirir um par de muletas para me auxiliar a andar. Nem devo dizer que não podia tentar descer escadas à vista do meu avô. Ele vinha correndo, sapecando-me impropérios e praticamente me carregava até o final da longa escadaria de um degrau e meio.

Com a proximidade da volta às aulas, no segundo semestre, começou a bater o desespero. A escola não era nem a um quilômetro da minha casa, mas havia uma avenida movimentada para atravessar e algumas escadarias (essas sim, longas) para chegar até a minha sala. Não que isso fosse realmente um problema pra mim. Eu temia, na verdade, a reação do meu avô.

Até tive razão. Ele cogitou a possibilidade de me levar à escola de carrinho de mão e no carrinho de bebê da minha irmã, que na ocasião tinha um ano e meio.

Graças aos céus, meus pais encontraram a solução contratando transporte escolar para me levar para… a rua do lado. Exagerado, mas… Bem, pelo menos meu avô desistiu da ideia do carrinho, um trauma que, na minha situação hierárquica social da escola, culminaria em suicídio ou metralhar os coleguinhas quando chegasse ao colegial.

Legal! Primeiro dia de aula, problemas logísticos resolvidos, possíveis traumas evitados, meus amigos invejariam meu ferimento e – a melhor parte! – assinariam meu gesso!

O mesmo gesso que estava tão áspero e irregular, que nenhuma caneta, canetinha, lápis de cor ou pincel atômico era capaz de fazer um traço decente, quanto mais assinar, escrever recadinhos de melhoras ou desenhos maneiros. E o pior: aquela bagaça branca e pesada mostrou-se um enorme e instransponível obstáculo para pinicões e coceiras no calcanhar. Agora a ideia não parecia mais tão divertida assim e eu passava a maior parte do tempo tentando não lembrar quantos dias ainda teria que suportar aquilo e pensando onde minha mãe tinha guardado as agulhas de tricô.

Resumindo a lista das frustrações, vinte dias depois fui retirar a bota. O enfermeiro serrou a obra prima, retirou meu lindo pézinho curado de dentro dele e me perguntou se eu gostaria de guardá-lo como recordação. Olhei aquele conjunto de borrões coloridos indecifráveis, agradeci o trabalho do profissional e me retirei com o resto da minha dignidade apoidada em uma muleta só, sentindo o pé novo sumir de vez em quando.

É por isso que a partir de agora, aquelas fotos minhas com o pé imobilizado serão uma lembrança do incrível dia em que levei meu cachorrinho para passear no parque e ele foi atacado por um crocodilo, fugido do zoológico, que foi parar no lago. A luta foi longa, árdua. Saí ferida, com uma mordida no pé direito, mas salvei meu companheiro de estimação.

E contarei essa história aos meus netos com os olhos úmidos de nostalgia, enquanto amaldiçôo internamente aquele degrau assassino.

2 pensamentos sobre “Marcas de Guerra

  1. Muito legal! Também nunca havia quebrado nada! e olha que fui um moleque peralta! Mas sempre fiquei “desejando” ter essa cicatriz, mesmo tendo cicatrizes de verdade na testa e no braço. Quando quebrei, jogando bola, também me decepcionei, pois não foi nada demais!
    Mas as estórias para filhos e netos, ah essas serão incríveis!!!

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