O coração

Lembro-me muito bem da rua em que passei toda a minha infância.

Não era uma rua muito extensa e não tinha saída, então a criançada sempre brincava ao ar livre, depois do horário da escola. Devíamos ser uns dez pirralhos, entre meninos e meninas e brincávamos juntos quase todos os dias, a não ser quando alguém ficava de castigo. Normalmente, quando isso acontecia, era por alguma arte coletiva e não raro, ficávamos todos no cantinho pensando.

A maior casa da rua era para aluguel. Diversas famílias passaram por ela, no período em que vivi lá. De todas, uma teve participação em um dos episódios mais marcantes da minha vida.

Em uma dessas vezes em que metade da rua estava de castigo por conta de um episódio que envolveu uma bola, uma vidraça e uma vizinha muito braba, sentei na beira da calçada e fiquei brincando com a terra úmida acumulada na sarjeta pela chuva, quando notei uma movimentação no quarto do segundo andar da casa grande. Embora tivesse uma sacada, a porta de vidro estava constantemente fechada, mesmo em dias quentes e eu nunca havia visto a cortina aberta, então estranhei quando vi um garotinho me espiando através dela. Acenei e ele acenou de volta. Com gestos, convidei-o para brincar na rua, mas ele negou com a cabeça e logo a mãe apareceu por trás dele, dizendo algo que não entendi. Depois que o menino entrou, a mulher ainda ficou me olhando por um tempo, até que fechou a cortina.

Nos dias que se seguiram fiquei meio obcecado pelo mistério do menino na janela e não consegui me concentrar no campeonato de damas, perdendo a liderança para o meu melhor amigo. Despeitado, acabei discutindo com ele e me afastei do grupo para curtir minha fossa sozinho, sentando em frente ao muro da casa grande.

Não tenho muita noção de quanto tempo passou até que ouvi um clique no portão. Me levantei um tanto assustado, com medo de levar bronca, já que não era familiarizado com os novos vizinhos, mas o homem que saiu me acalmou, dizendo que estava indo à farmácia e eu não precisava me incomodar.

Eu gostei da forma como ele falou comigo. Foi muito gentil e não me tratou como criança, como os outros adultos faziam. Imediatamente gostei daquele cara, então me senti na liberdade de perguntar-lhe quem era o menino do andar de cima. O homem sorriu, me dizendo que era o filho dele. Eu quis brincar com ele, mas então fiquei sabendo que o garoto tinha alguma doença e não podia sair na rua. Resolvi voltar para casa, profundamente comovido com a situação de uma criança que não podia sair de casa.

Foi por este motivo que, no dia seguinte, juntei meus bonequinhos favoritos em uma sacola de supermercado e fui decidido tocar a campainha da casa grande. Levou algum tempo até que abrissem o portão. Era a mulher que eu tinha visto na janela, com o menino. Quando me viu, ela sorriu lindamente, como minha mãe fazia.

_Pois não?

_Oi, moça! Eu moro aqui na frente e queria brincar com aquele cara que fica sozinho lá em cima.

_Puxa… Sinto muito, ele não pode sair de casa. Ele precisa evitar pegar qualquer doença.

A minha proposta de brincar na casa dele não me pareceu tão educada assim, agora que aquela mulher elegante me tratava tão bem e eu me lembrava da educação recebida em casa: “Nunca faça nada na casa dos outros, sem que lhe convidem.” Então fiquei muito tempo parado, olhando para a sacola cheia de bonequinhos e riscando o chão com o pé, sem saber o que dizer, quando a mulher bonita me disse:

_Você quer entrar? Aqui dentro vocês podem brincar juntos.

Aliviado pela solução, acenei positiva e freneticamente com a cabeça e pedi um “com licença” tímido.

_Eu trouxe uns hominhos pra gente brincar…

_Venha cá. Vou preparar um lanche para vocês, enquanto te ensino a limpá-los.

Enquanto ela fazia leite com achocolatado e separava umas bolachas na bandeja, me explicava que sabia que eu cuidava muito bem dos meus brinquedos, mas infelizmente os micróbios acumulados pelo tempo poderiam trazer uma doença perigosa para seu filho.

_Vocês, meninos que podem brincar na rua, têm muitos soldadinhos valentes dentro do corpo que combatem todos esses micróbios e não deixam vocês adoecerem por qualquer motivo. Mas meu filho tem menos soldadinhos que vocês.

_E como faz pra colocar mais um exército nele, tia? Injeção dói um pouco, mas pode ajudar…
Ela riu bastante com minha sugestão e fiquei meio ofendido, mas ela explicou que o problema dele era outro.

_Põe a mão no peito. Sente as batidas do seu coração? O coração do meu filho é muito fraquinho e ele precisa ganhar um coração novo. Terminei o lanche. Vamos subir?

Subimos as escadas. Eu com os bonequinhos limpos e ela com a bandeja de bolachas e leite com chocolate. Fiquei ainda mais curioso para conhecer o tal menino que não tinha soldadinhos suficientes no corpo.

Abri a porta do quarto para que ela entrasse e vi o menino novamente na janela, olhando para fora. Ela entrou com o lanche e colocou sobre uma mesinha. O quarto estava repleto de equipamentos eletrônicos, que na época eu não entendi, mas serviam para manter a saúde do meu novo amigo e controlar suas crises.

_Filho, um amiguinho veio brincar. Vou deixar o lanchinho aqui, tá? Qualquer coisa me chamem.

Por um momento ficamos nos encarando. Não senti hostilidade em seu olhar, mas um pouco de medo. Ele estava com uns tubinhos abaixo do nariz e eu achei interessante, então resolvi puxar assunto.

_O que é esse tubinho transparente?

_É oxigênio. Serve pra me ajudar a respirar.

Eu nunca havia reparado que não percebemos quando respiramos. Foi a primeira vez que me dei conta e imaginei que deveria ser horrível não conseguir respirar sozinho.

_Eu… trouxe uns hominhos. Você gosta? Tem o Wolverine, o Batman, o Homem-Aranha. O Super-Homem tá sem uma perna, mas ele voa, então não deve ligar muito.

_Nossa! Você tem todos eles? Posso ver?

Fiquei surpreso e animado com tamanha curiosidade, então virei a sacola de bonecos em cima da cama. Ele pareceu hesitar um pouco antes de pegá-los, mas quando eu disse que havia limpado todos eles, o menino relaxou.

Ele passava muito tempo sozinho no quarto, então conhecia a história de cada um dos personagens. Passou horas me falando sobre cada um deles e simulando as maiores batalhas que cada um já havia enfrentado com seus arqui-inimigos, nas histórias em quadrinhos.

Obviamente eu não tinha os inimigos, então fazíamos de conta que um boneco qualquer era o “do mal”. Na maioria das vezes, o Super-Homem perneta.

O tempo passou tão rápido, que quando me dei conta já era hora do almoço e ouvi minha mãe gritando meu nome lá fora.

_Nossa! Eu preciso ir! Tenho que ir à escola e ainda nem tomei banho!

Comecei a juntar os bonequinhos e vi que meu amigo ficou bastante decepcionado.

_Olha, você pode ficar com eles. Amanhã eu venho buscar.

Hoje não sei se ele ficou mais feliz por poder ficar com os bonecos ou porque eu disse que voltaria no dia seguinte. Mas foi o que eu fiz. Naquela semana e na que se seguiu e na outra, eu ia todos os dias brincar com o menino doente. Ele me ensinou muitos jogos, me emprestava histórias em quadrinhos e livros. Foi com ele que peguei o gosto pela leitura. Por minha vez, eu levava meus brinquedos para sua casa e o ensinei a jogar damas.

Eu era o único da nossa rua a ir àquela casa, já que a rotatividade de moradores era grande, então a vizinhança criou uma cultura de não se envolverem com os inquilinos dela.

Um dia, contei à minha mãe sobre a doença dele e perguntei se não poderia dar o meu a ele. Ela me explicou que uma pessoa não pode viver sem seu coração e que para ele conseguir um novo, alguém teria que morrer. Me pareceu muito mórbido e me lembrei de um livro que ele havia me emprestado: Frankenstein.

Quando as visitas já tinham se tornado rotina, um dia toquei a campainha e a mãe do menino não permitiu que eu entrasse.

_Ele pegou um resfriado e é melhor vocês não brincarem por uns dias, pois poderá passar pra você.

Olhei triste para a janela e meu amigo acenou para mim, dando de ombros como quem diz que não há o que fazer. Voltei a sentar na calçada e fiquei olhando a turma da rua jogar futebol. Meu orgulho não permitia que eu pedisse para brincar com eles, pois a briga por causa do jogo de damas ainda estava fresca na minha memória. Mas o calor de uma pelada é mais forte e aos poucos fui me aproximando, até que o próprio me convidou para integrar seu time.

Pela primeira vez não reclamei de ficar no gol. Sabia que ele já tinha feito muito em me aceitar no jogo. Então quando acertaram um chute forte e torto, xinguei os bananas da defesa, mas corri atrás da bola que ia até a entrada da rua e rolava morro abaixo, em direção à avenida. Apertei a carreira para alcançá-la, pois seria impossível conseguir quando chegasse à avenida movimentada, ouvi uma freada brusca, cantar de pneus e acordei no hospital com o braço engessado e a perna cheia de pinos.

Meus pais estavam sentados ao meu lado. Minha mãe dormia e meu pai folheava uma revista, aparentando estar prestando pouca atenção a ela.

_Pai?

_Filhão! Que bom que acordou!

Minha mãe teve um sobressalto e ambos correram para a beira da minha cama, segurando minhas mãos. Eu estava meio tonto e sentia um pouco de dor, mas minha preocupação era outra.

_Mãe, eu estou morto?

Ela ainda estava triste, mas sorriu.

_Não filho, não está.

Eu ergui um dos braços e olhei para os dedos esfolados.

_O que aconteceu?

_Você foi atropelado na rua da frente. Está com a perna e o braço direitos quebrados. Também tem uma costela pra consertar, mas logo vamos sair do hospital e você vai poder brincar de novo.

Eu respirei fundo e baixei o braço. Fiquei ouvindo aquele monte de “pi” agudo e olhando as gotas pingarem do soro intravenoso.

_Mãe, se eu morrer, dá meu coração pro menino da casa grande, tá?

Minha mãe começou a chorar e me abraçou, dizendo que eu não ia morrer. Meu pai passou as mãos no cabelo e me perguntou de onde eu havia tirado aquela ideia.

_Pai, eu já usei bastante. Ele nunca pôde sair de casa. Se eu não melhorar, dá meu coração pra ele. Promete?

Meu pai explicou que era preciso que o sangue das duas pessoas combinassem, ou algo parecido. No dia eu não entendi muito bem e logo dormi de novo.

Meus pais tinham razão. Logo eu saí do hospital e tive que ficar de repouso por um bom tempo. Depois que o braço sarou, pude andar de muletas, mas com a mobilidade reduzida. Por isso, não pude sair de casa por vários meses, até tirar os pinos.

Meus amigos me visitavam todos os dias e levavam várias coisas para me distrair. Eu sempre perguntava se alguém estava indo brincar com o menino da casa grande, mas ninguém foi. Cheguei a pedir para que minha mãe me levasse à casa do meu amigo, para fazermos companhia um ao outro, mas fiquei sabendo que no meio da minha recuperação sua família se mudou da minha rua.

Nunca fiquei sabendo se ele conseguiu o coração novo.

Conto em memória do jornalista e amigo Ale Rocha, falecido no dia 06 de dezembro, por uma infecção contraída após transplante de pulmão, pela qual esperou durante dois anos. Nunca é demais lembrar que, para ser doador de órgãos, é necessário avisar sua família, pois a decisão final será deles.

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