O Corpo – Final

Este post é o final do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS, TRÊS e QUATRO antes de prosseguir.

Ainda ficou algum tempo apertando a garganta do cadáver, até ter certeza de que não havia mais nenhum batimento cardíaco. Soltou-a gradativamente sentindo o sangue voltar aos seus dedos, cujas juntas estiveram brancas pela força. Pousou a mão na própria garganta arfante, apavorada pelo que tinha acabado de fazer. Limpou em um gesto de raiva as lágrimas do rosto e recuou se arrastando pelo chão, até o outro canto do quarto.

De lá ficou olhando as pernas imóveis da morta e tentando assimilar o que aconteceria agora. Sentiu náuseas e correu ao banheiro, onde vomitou tudo o que comeu durante a tarde. Finalmente a respiração foi normalizando, junto ao raciocínio. Primeiro precisava ficar atenta aos sons de fora e verificar se alguém havia ouvido alguma coisa. Permaneceu em silêncio e estática por um bom tempo. Não houve nenhuma movimentação que indicasse suspeitas.

Estendeu as mãos e ficou olhando para os próprios dedos, até que parassem de tremer.

Resolveu, então, que era hora de começar o ritual.

Voltou ao quarto e descobriu que não tinha coragem para encarar o rosto inerte da ex-companheira. Pegou as anotações que fez e espalhou ao lado do corpo. Depois se ajoelhou ao lado dele, pronta para iniciar.

Respirou fundo, fechou os olhos e disse em voz bem alta e com a pronúncia perfeita o nome que agora conhecia bem. Em seguida proferiu como um mantra o seu pedido.

“Eu desejo, mais que tudo no mundo, ter o corpo dela.”

Continuou de olhos fechados, esperando ouvir algum som ou sentir alguma coisa que indicasse que havia funcionado, mas tudo que aconteceu foi continuar o silêncio.

Abriu os olhos um pouco contrariada e foi então que percebeu a presença próxima à porta do quarto.

Tentou olhar naquela direção, mas era impossível focalizar a imagem. Embora dessa vez tivesse certeza de que possuía os contornos de um homem.

“Vejo que fez tudo como o orientado. E também tomou suas precauções ao meu respeito, não é?”

Ela sentiu um profundo sarcasmo na última frase, mas achou melhor não discutirem os símbolos que espalhou pelo cômodo. Resolveu esclarecer tudo, então.

“E o que acontece agora?”

“Agora? Eu cumpro minha promessa e te concedo o que deseja, conforme me foi pedido. Nosso trato está cumprido. Tem mais alguma coisa que queira me dizer?”

Ela estava resoluta. Não havia mais como voltar atrás.

“Não. Vamos prosseguir.”

Um forte vento teve início e, como no sonho, tudo se desfez em areia que girou num redemoinho em torno dela, enquanto a voz dele ecoava.

“Então está feito.”

Ela sentiu uma tontura fortíssima e ergueu o rosto com a boca desmesuradamente aberta, como se fosse gritar. Mas antes que a voz saísse, tombou ao lado da morta.

Acordou imersa na escuridão.

Ouvia vozes, muitas vozes em torno de si e uma movimentação como se estivesse sendo carregada. Tentou abrir os olhos, mas não representou mudança. Tentou mover-se inutilmente.

Começou a se desesperar quando o movimento à sua volta parou e percebeu que não conseguia mexer ao menos os lábios para gritar por socorro.

Uma luz forte se acendeu ao seu redor e entendeu que tiraram algo que cobria seu rosto. Queria perguntar onde estava e para onde a estavam levando, mas parecia não dominar o próprio corpo. Esta constatação lhe recordou os últimos acontecimentos e foi então que notou que não estava no “próprio” corpo e sim, dentro do corpo da companheira de quarto. Este, por sua vez, estava dentro de algo que se assemelhava muito a um caixão.

E teve essa certeza quando viu várias pessoas se debruçando sobre o “seu” corpo para chorar.

Também teve vontade de chorar. Mas não podia. O pânico tomou conta dela. Conseguiu vislumbrar lápides e criptas. Aquele era o último adeus da família, antes de descer o esquife à tumba. Já estavam no cemitério e seria enterrada viva.

Foi quando entre os rostos, viu perfeitamente aquele que soube imediatamente ser da entidade que a ludibriou. Quis falar, mas não conseguiu. Ouviu a voz dele dentro de sua cabeça.

“Por que se desespera, querida? Seu desejo foi realizado. Agora você tem o corpo que sempre quis.”

Sentiu que ia chorar. Novamente, não pôde. Enlouqueceria, certamente.

“Porque me enganou? Você tem a alma dela e eu só queria ser bonita!”

Percebeu que mais ninguém o enxergava, nem ao menos percebiam que ela estava ali, viva.

“Por quê? Ora… Agora eu não tenho somente uma alma que se apega à vida, mas duas! Você quis viver assim que soube que teria o desejo realizado. E agora também me pertence.”

Apavorada, notou que os parentes da assassinada fechavam a tampa do caixão.

“Me tire daqui! Por favor! Eu suplico! Não deixe que me enterrem viva!”

“Viva? Não, você não está viva. Este corpo está morto e entrará em decomposição tão logo seja sepultado. Depois disso voltarei para te buscar. Até lá, deixarei que desfrute a conquista do seu maior desejo.”

A tampa se fechou e ela gritou.

Mas como no pesadelo que foi sua vida inteira, ninguém sequer percebeu.

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