O Corpo – Parte 4

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia as partes UM, DOIS e TRÊS, antes de prosseguir.

No dia em que matou a colega de quarto, ela acordou cedo e foi caminhar pelo campus.
Era o dia perfeito para acontecer, pois era sexta-feira.

Às sextas-feiras, a garota entrava correndo logo depois da academia, jogava algumas roupas dentro da mala, tomava um banho e corria à rodoviária, para não perder o último ônibus para a cidade vizinha, onde morava o namorado. Então não a procurariam por pelo menos dois dias, até o domingo à noite, que era quando ela normalmente retornava.

Neste dia ela teria somente duas aulas de manhã, já que o professor da aula à tarde estava de licença. Então teria tempo de sobra para preparar o quarto para o ritual, antes que a companheira chegasse em seu afobamento.

As aulas passaram lentamente, cada segundo pingando devagar, como uma torneira mal fechada. Ela acompanhava cada mudança nos dígitos da hora pelo celular e conseguia até mesmo acompanhar o movimento do sol, tamanha a ansiedade. Toda aquela emoção a fez sentir muita fome. Como não tinha tempo a perder, pediu para viagem o combo de fast food de sempre, na lanchonete de sempre e correu para comer no alojamento, sabendo que assim que fechasse a porta, seu futuro estaria selado.

Passou o resto do dia limpando o quarto e guardando coisas. O sol se pôs e ela acendeu um incenso para queimar enquanto tomava o banho. Ao voltar, desenhou muitos símbolos de proteção no chão e nas paredes, para que a entidade não tomasse o controle da situação, que deveria ser somente dela. Quando achou que estava tudo pronto, terminou de enxugar os cabelos e, pela primeira vez na vida, escolheu bem a roupa que iria usar.

Então se sentou na cama, botou Epica pra tocar e esperou a hora chegar.

Reconheceu os passos da colega de longe. Sentiu os nervos ficarem tensos, mas respirou fundo para que ansiedade não a traísse.

A porta se abriu e a rotina se repetiu, porém dessa vez a loira lhe dirigiu algumas palavras:

“Meio macabra essa música que você tá ouvindo, heim? Se é pra ouvir nessa altura, toca um som mais alegrinho. É sexta-feira!”

“Eu gosto. Me deu vontade de ouvir hoje.”

“Ah, foda-se. Daqui a pouco estarei longe, mesmo. E esses desenhos por todo lado? Você é meio louca, né?”

Ia responder, mas a companheira já tinha ido ao banheiro. Então começou a colocar seu plano em prática. Correu até a bolsa dela e pegou o celular. Procurou na agenda o número do namorado e ligou.

Ele atendeu feliz.

“Oi, amor!”

“Er… oi! Aqui é a colega de quarto da sua namorada, desculpe.”

“Colega de quarto? Que estranho… nem sabia que ela tinha uma.”

“Então… ela me pediu pra te ligar, porque uma tia dela faleceu hoje cedo e ela vai ter que ir à casa dos pais. Não poderá te visitar esse final de semana.”

“Nossa! Que chato… Ela está aí? Por que não me ligou, pra avisar?”

“Ela só ficou sabendo agora. Ela mesma falaria, mas está bastante abalada e me pediu pra te avisar.”
Com isso e mais a despedida que a etiqueta pede, a ligação foi finalizada, deixando o caminho totalmente livre para o que iria fazer.

Quando a garota voltou, enrolada na toalha, o celular já estava no lugar correto. Portanto mal entendeu o que estava acontecendo no instante em que foi guardar as roupas na mala e a colega a atacou.

Primeiro tapou-lhe a boca com uma das mãos e então, com o outro braço a agarrou pela cintura, tirando-lhe facilmente o equilíbrio com os joelhos. Assim que a garota estava no chão, sentou-se sobre ela, prendendo-a com o próprio peso, as coxas imobilizando as pernas e as mãos em sua garganta. Com a agitação, a toalha que lhe cobria a nudez caiu. A visão daquele corpo perfeito sob si aumentou sua fúria. Todos os anos de ódio foram canalizados para seus pulsos e dedos, fazendo surgir hematomas no pescoço delicado que apertava. O corpo atlético representava toda sua derrota, tudo aquilo que nunca pôde ser. Queria destruí-lo, desmembrá-lo, desintegrá-lo.

A vítima tentava se defender, usando toda sua força, mas só poderia lutar contra uma pessoa. Não com décadas de mágoa e ódio engolido. O ar foi rareando e a respiração já cessara há alguns minutos. Sentiu o fôlego se perder, enquanto a pressão na cabeça aumentava. A visão escureceu aos poucos até perdê-la de vez.

Guardou como derradeira imagem o rosto de sua assassina banhado em lágrimas, com um brilho insano nos olhos.

Continua… Leia a parte final

5 pensamentos sobre “O Corpo – Parte 4

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s