O Corpo – Parte 3

Este post é continuação do conto O Corpo. Leia primeiro as partes UM e DOIS, antes de prosseguir.

Não o encontrou em nenhum livro de História, nem mesmo nos de História das Religiões. Estava quase desistindo, quando pensou que procurava nos registros errados. Com breve pesquisa online, encontrou menções do nome em determinados rituais místicos, para alcançar sucesso em projetos. Lembrou-se do local do encontro, que se assemelhava muito à uma ruína medieval, então buscou por bruxaria e Lupercais. Prosseguiu procurando, até ter uma ideia: em vez da grafia, por que não o fonema?

A partir daí descobriu que a divindade era ainda mais antiga do que imaginava, pois havia registros de encantos realizados no Egito Antigo. Com pouco mais de uma semana, conseguiu encontrar menções em várias épocas diferentes, todas utilizando alguma variação fonética do mesmo nome que gritou ao acordar.

Os rituais eram diferentes, mas todos envolviam conquistar algo fora do alcance humano. Porém era unânime entre as fontes que a presença da entidade provocava um sentimento de poder ao alcance das mãos e muito medo, emoções tão ambíguas quanto os motivos que todos possuíam para invocá-lo.

O segundo ponto em comum era a moeda de troca exigida em qualquer um dos rituais: um sacrifício humano.

Resolveu reunir tudo o que encontrara em um resumo no computador. Enquanto a colega passou o final de semana fora, trancou-se sozinha no quarto e juntou no arquivo tudo o que julgava mais importante, como locais e datas históricas onde encontrou registros de ocorrências, símbolos de proteção que utilizavam para controlar o poder daquele ser, providências de purificação mental para o ritual, assim como o próprio ritual completo, com cada etapa e item necessário detalhadamente descritos.

Estudou durante horas a pronúncia exata do nome da entidade e foi nessa hora que se deu conta do que estava prestes a fazer.

Como se despertasse de um transe, observou a sua volta todos os livros e documentos que a rodeavam e se deu conta do caminho sem volta que percorria. Na sua mente, praticamente todos os detalhes já estavam planejados e havia pouquíssimas chances de dar errado, desde que a visita em seu sonho tivesse sido real. E pouco se importando com que este raciocínio representava à sua sanidade, repassou todos os motivos que a levaram a se agarrar desesperadamente àquela possibilidade.

Amargurada, olhou para o próprio corpo e tocou-se quase com repulsa. Nunca ninguém quis beijá-la, abraçá-la ou tocá-la. Não sabia o que era carinho, nem mesmo partindo da própria família, que sempre a criticou por não conseguir emagrecer. Sabia que por conta disso sempre se sentiu incapaz de qualquer coisa, até mesmo de ter um pouco de vaidade e arrumar o cabelo, escolher roupas que lhe caíssem melhor ou se maquiar. Na verdade, a cada nova manhã, tinha vontade de não ter acordado.

Considerou a possibilidade de estar sendo ingênua. Então comparou uma existência mergulhada no desejo de não existir e as consequências de um assassinato, caso o ritual não desse certo e não encontrou diferença entre uma vida e outra.

Quando a companheira de quarto chegou da viagem, a encontrou feliz pela primeira vez.

Continua… Leia a parte 4

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5 pensamentos sobre “O Corpo – Parte 3

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