A criatura

Acordei e mantive os olhos fechados. Decidi que não ia abri-los enquanto não tivesse uma boa ideia. Permaneci uns bons minutos deitada de costas, com as mãos sobre o ventre, até que um esboço incerto me surgiu e senti algo pulando sobre meu travesseiro.
Estatelei os olhos e ainda pude ver a pequena disforme correndo pela cama, subindo sobre minhas pernas e fugindo em ziguezague das minhas mãos que tentavam segurá-la. Rapidamente sentei, mas antes que pudesse tocá-la, escorregou o seu corpo escuro e brilhante pelo vão entre a cama e a parede.
Levantei-me e agachei para olhar sob o estrado. Ela estava encolhida no canto mais inacessível, rindo gostosamente com sua vozinha fina e travessa.
_Venha cá, danadinha!
Meti meio corpo debaixo da cama e estiquei o braço em sua direção. Embora visse a mancha diminuta encolhida, não podia distinguir-lhe as formas, tanto pelo escuro do ambiente, quanto pelo fato de que a diabinha não quedava quieta. Ela me observou até quase as pontas dos meus dedos a alcançarem e, quando me faltavam poucos centímetros, pulou em meu punho, correu para o meu rosto, esbarrou em meu nariz e fugiu pelo quarto.
Sussurrei algumas pragas, bati com os punhos no chão e saí debaixo da cama. Se a criatura não sossegasse, eu não poderia compreender-lhe o formato.
Fiquei em pé no meio do quarto, imóvel. Esperando para agarrar qualquer coisa que se movimentasse na penumbra. Eu sei que esses seres ingratos não conseguem ficar quietos por muito tempo.
Não deu outra. Lá vem o treco do tamanho de um gnomo, correndo de trás do guarda-roupa.
_Ah, sua sapeca, agora eu te pego!
Ameaçando eu me sentia melhor, mas funcionava pouco. O bichinho era arisco até dizer chega e corria de um lado pro outro, subindo nos móveis, derrubando coisas da cômoda, divertindo-se pulando tecla a tecla do teclado, até me deixar completamente tonta. No meio de tanto movimento, eu conseguia vislumbrar sua forma e já ia surgindo a cabeça redonda, as duas perninhas e os dois bracinhos abertos pra se equilibrar na corrida.
Exausta, sentei no chão.
_Ok, engraçadinha. Desisto.
Ela brecou derrapando e me encarou. Então pude ver nitidamente a sua forma, bem como o sorrisinho irônico. Caminhando lentamente, escalou meu cobertor e se sentou muito confortável em meu travesseiro. Ficou me encarando ansiosa, enquanto eu me sentava como índio, nos pés da cama, de frente para ela.
_Finalmente chegamos a um acordo, então?
Pulando feito criança que ficou sabendo que vai pro Hopi Hari, veio saltitante, negra e lisa até sentar em meu colo. Ficou me olhando com a cabecinha erguida e rindo gostosamente. Peguei-a com cuidado – para que o corpinho escorregadio não me escapasse das mãos, caso segurasse com muita força – fui até o interruptor e o acionei.
Com a luz, ela se ergueu e ficou em pé na minha palma, apoiando-se em meu polegar para equilibrar. Sua cor mudou e logo parecia uma bolha de sabão, toda prateada com brilhos coloridos. Seus reflexos se espalharam por todo o cômodo e faziam desenhos engraçados no forro de madeira.
_Você é uma Ideia muito vaidosa, sabia? Onde já se viu, querer um texto todinho sobre você?
Ela fez que sim freneticamente com a cabeça e começou a puxar meu polegar em direção ao notebook fechado, na cômoda.
_Sua sorte, foi não tê-lo derrubado no meio da bagunça que fez em meu quarto.
Ela passou a mãozinha na nuca, encabulada.
Ajeitei o travesseiro na cabeceira da cama, me recostei, acomodei o notebook e a pequena ideia no colo e despejei o texto no teclado.
Vez ou outra, não contente com o que eu escrevi, ela segurava minhas mãos e digitava o que queria, principalmente nas partes que a descreviam, até desaparecer diante do ponto final, a espertinha.

7 pensamentos sobre “A criatura

  1. Uau! Narrativa muito empolgante e envolvente. Concordo com o Maurício, daria um livro sensacional, porque tem um apelo visual muito forte. Engraçado que vou tratar de algo semelhante no próximo capítulo do Diário, que já estou esboçando.

    Parabéns, ótimo conto pra encerrar a semana!

  2. adorei sua idéia… muita esperta! vai tem irmãs, primas, amigas, conhecidas, almas gêmeas, turma, vai saber, não é?
    Lembrei de Maria do Céu, personagem de Bartolomeu Campos de Queirós:

    “Um dia, Maria do Céu cansou de ser idéia.
    Com as nuvens, costurou um vestido.
    Pediu emprestados os sapatos de um anjo.
    Arrancou sua estrela e colou na ponta de um pedaço de raio de Sol.
    Com retalhos de papel de seda – resto de papagaio solto de linha – construiu seu chapéu.
    E Maria, idéia no céu, virou fada!

    Isso faz poucos dias…”

    =) paz e bem!

    • Ideias também têm personalidade. A minha não tinha nem nome, mas era vaidosa e arisca. A do Sr. Campos de Queirós era poética e prática hahahaha.

      Mas todas têm algo em comum: não podem sentir que tentamos prendê-las, ou nos escapam das mãos como água.

      Assim como as pessoas, ideias precisam ser cativadas aos poucos ^^

      Obrigada pela visita e não esqueça o caminho. A porta está sempre aberta =)

  3. “Mas todas têm algo em comum: não podem sentir que tentamos prendê-las, ou nos escapam das mãos como água.
    Assim como as pessoas, ideias precisam ser cativadas aos poucos ^^”

    Genial, pequena, genial!

    Amei seu conto, é desses que vou ter que reler de tempos em tempos! Minhas idéias nunca mais serão as mesmas!

    Bjo!

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