Despedida

Conto de Renatto Neves. Conhece seu blog Textosterona?
Era sábado. Um sábado um pouco diferente dos convencionais. Meio atordoado com a notícia que acabara de receber, ele apenas passou a mão na sua jaqueta preta já surrada pelo tempo e caminhou em direção a porta. Estava tão pensativo que deixou a porta entreaberta com os seus trincos todos desprezados. Não era comum. Ele morava em
um barraco que já fora vítima de alguns arrombamentos. Mas isso não importava. Caminhando na rua pouco  iluminada, logo avista o seu lugar de refúgio: o bar da esquina. Entre gritos de euforia de uma turma que fazia algazarra jogando sinuca, em um gesto discreto cumprimenta o dono do bar, este que sentia que o sujeito não estava bem. Adivinhando a necessidade de seu cliente, Seu Neco, como era conhecido por toda a região, enche um copo com o seu melhor conhaque e oferece ao rapaz, como em um abraço confortante em um filho tentando tapar algum buraco interno. Sem pestanejar, uma golada. Põe a mão no bolso, pega um cigarro, acende. Pede outro copo e começa a
reparar nas pessoas que lhe faziam companhia. Sem nada de atrativo, vira mais um copo em uma única golada e continua sua jornada.
Em passos curtos, lembra das últimas palavras que ouvira antes de despedaçar seu celular na parede, em um ato de fúria. Anestesiado com tudo, resolve passar na casa de um amigo, o mesmo que telefonara a pouco pra ele. Sem pronunciar nenhuma palavra, lhe entrega o revólver muitas vezes utilizado por ambos. Em um movimento ágil, abre
o tambor da arma e verifica se está carregada. Dá uma última olhada para o amigo, este que abaixa a cabeça como estivesse se despedindo. Sabiam que era uma despedida. Uma despedida amarga. Eram amigos de infância. Um cuidava do outro, sempre. Mas agora tudo era diferente. Ninguém podia fazer nada. Mesmo sabendo disso, o rapaz prende a arma no cinto de sua calça, encobre com a camisa, e continua o seu percurso com os olhos avermelhados, onde escondiam uma miscelânea de sentimentos. Logo em frente, entra em uma loja de conveniência, se apossa de uma garrafa de conhaque, um maço de cigarros e sai, como se nada estivesse acontecendo. O dono do estabelecimento
reconhece o rapaz e nada faz. Conhecia a sua fama, ouvira muitas histórias a respeito e achou mais conveniente ignorar. Mais um cigarro acesso, mais uma golada. Esse era o combustível que lhe dava forças para continuar.
Garrafa seca no chão, este agora então se transforma. Era o Polegar. Um homem franzino, de pouca estatura, que só era visto de noite e totalmente drogado. Ele tentou parar, mas já era tarde. Sua dívida acumulada era imensa e difícil de ser quitada. Mas foi. Custou a vida de sua esposa. Benê, o maior traficante da região, sabia que a vida era a melhor moeda. Polegar sabia que todos o estavam esperando. Para ele não importava mais nada… Uma lágrima caia do seu rosto enquanto caminhava em direção a Benê e toda a sua corja. Lembrava de todos os momentos felizes que vivera com sua amada e falecida esposa. Lembrou da luta que estava travando para abandonar o seu vício. Queria parar. Procurou ajuda, não obteve. Resolveu procurar um emprego a pedido da falecida esposa, que carregava há 5 meses em seu ventre a esperança de uma vida diferente. Outra lágrima cai. Sem pensar, Polegar saca a sua arma e efetua um disparo.
Mas para surpresa de todos, não tenta atingir Benê, tal como seus mandados. Ele sabia da sua culpa. Sabia que ele provocou toda a situação. Caiu de joelhos, com um tiro externado de sua própria arma, de sua própria mão. Morreu ali, na frente de todos, esperando encontrar sua esposa e seu tão esperado filho.
Em um tom impiedoso, Benê lhe vira as costas com um ar de missão cumprida. Haviam mais devedores. Havia muito o que fazer. Pega seu cachimbo, acende mais uma pedrinha de crack e dá uma risada maléfica, agradecendo por morar em um país tão omisso aos problemas sociais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s