O sonho

Do fundo do sono, o som do despertador se mistura com as cenas que se desenrolam e ela é resgatada do mundo dos sonhos como se fosse lentamente trazida à superfície. Lá, nas margens da realidade, ele a esperava com expectativa no olhar.
Ela sorri, suspira e se estica toda, num ritual que pode tanto servir para despertar, quanto para demonstrar que ainda não acordou.
No início ele só a observa. Depois a puxa contra o próprio corpo e a envolve com os braços e pernas. Antes que pense em dizer “bom dia”, percebe que ela já está dormindo novamente. Então desliza a mão pela lateral do seu corpo nu, dos seios até as coxas. Novo suspiro, mais alongamento.
_Já é hora de acordar mesmo?
_Não. A gente pode ficar aqui o dia todo.
Ela ri e ele franze a testa. Estava falando sério.
(…)
Ele lhe cobre o corpo com o lençol e senta na beirada da cama. Ela precisa tocá-lo, então desliza a palma da mão em suas costas, sentindo cada pedaço da pele quente.
_Não vai trabalhar, não. Fica aqui comigo.
_Preciso ir. Volto para almoçarmos, tá bom?
Ela se levanta, deixando o lençol cair e o abraça pela cintura, puxando-o de volta para a cama.
_Não vou deixar. Quero ver você escapar agora.
Rindo, ele se desvelhencia e a prende debaixo de si, somente com o próprio peso. Ela se sente muito pequena, sob o corpo forte e o olhar de desejo.
Sem nenhum esforço aparente, a carrega de volta para o travesseiro e lhe planta um suave beijo nos lábios.
_Fica aí dormindo. Eu já volto.
(…)
_Não sei o que acontece com a mala que parece estar sempre mais cheia na volta do que na vinda.
Enquanto ela tenta encaixar as roupas e sapatos na bolsa, ele se aproxima silencioso por trás e a abraça.
Ela engole as lágrimas. Nunca foi boa com despedidas.
(…)
Através do vidro filmado, da sala de embarque, ela consegue ver vagamente a silhueta em pé do lado de fora do aeroporto.
Atravessando a pista, em direção ao avião, acena para o posto de observação. Ele acena de volta.
Já dentro do avião quer voltar correndo, esquecer tudo e ficar ali, naquele lugar entre seu ombro e pescoço para sempre. Mas a pista já foi deixada para trás, os trens de pouso estão sendo recolhidos. Da janela pode vê-lo parado, no mesmo lugar até que um impulso o esconde abaixo das nuvens.
Não precisa mais se controlar. Deixa que as lágrimas corram e sua tendência à fantasia a faz imaginar as pequenas gotas pingando sobre as nuvens.
(…)
Quando acordou, o avião já estava pousando novamente.
Chovia.

5 pensamentos sobre “O sonho

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s