O Homem dos Cartões

Eu sempre acreditei que nada é por acaso.
Todos os dias, ao sair do trabalho, o homem me oferecia seus cartões da porta do metrô. E a cada dia que eu agradecia e passava reto, sentia que perdia algo importante.
A questão é que saindo atrasada por dias seguidos, eu temia não chegar a tempo para tomar o último ônibus que sai do centro para a minha casa e com isso eu fui me tornando mais uma daquelas pessoas anônimas e sempre com pressa. Comecei a ser um dos autômatos que sempre critiquei, até me dar conta disso.
E foi no dia que obriguei meus passos a andarem fora do ritmo da multidão, que eles estacionaram de frente para o homem dos cartões e me vi pedindo para aproveitar o meu tempo a examinar seus cartões.
Ele me permitiu abrir todos, sob seus comentários de como cada mensagem foi escrita e as imagens escolhidas. Não eram cartões diferentes da maioria, mas eram bem feitos, de bom material. Assim como o homem.
Ele também não tinha nada de especial. Nada que o fizesse se destacar das pessoas que vêm e vão todos os dias, muito menos dos demais vendedores ambulantes que competiam com ele a atenção da turba desvairada, chamada “proletariado”.
E é aí que entra o lance do destino.
Entre os cartões, um único me chamou a atenção. Não pela beleza e originalidade das palavras, ou pela alta qualidade da ilustração. Mas do alto de sua simplicidade – e até mesmo, clichê – me fez pensar em uma única pessoa. E no devaneio, ouço ao longe o homem dizer: “Leve este. Você nunca sabe quando vai precisar de um cartão.”
Duvido que ele tivesse uma inspiração divina, no momento, para me dizer isso. Acredito mesmo que era um de seus argumentos de venda e que, para ele, foram palavras lançadas ao acaso. Para mim, embora, as grandes inspirações surgem no corriqueiro e isso me fez erguer o rosto como quem ouve chamar seu nome. Comprei.
O cartão voltou comigo para casa, dentro da bolsa e eu a pensar que o cartão já tinha dono, só faltava agora o momento. Ele ainda permaneceu engavetado durante alguns dias. Eu voltei a ser o autômato fabricado que acorda para obedecer e dorme para sonhar.
Foi quando meus erros me sacudiram do torpor do sono, o transe foi desfeito como por um estalar de dedos. O dia transcorreu aflito, à noite encontrei o fio da meada, mas perdi o controle e algo muito mais importante: uma chance.
O cansaço tornou-se o fardo a ser carregado pelas horas que se arrastaram madrugada afora, logo depois que o sono fugiu de mim. As lágrimas me acompanharam por várias horas, antes de também me abandonarem, exaustas de rolar.
Então sentei como índio na cama e espalhei sobre ela todas as minhas dúvidas e medos. Forcei-me a refletir sobre a origem de cada um deles e as respostas que fui encontrando reabriram feridas, que incomodavam menos do que as cicatrizes que dantes haviam deixado.
Rastros de letras foram deixados para trás e os olhos inchados foram os únicos vestígios que restaram da batalha interior, quando o sol nasceu e surpreendeu-me insone, no momento em que finalizava o envelope do cartão e revisava este texto pela última vez.
Foram postados no mesmo dia, o cartão e o texto.
E como toda noite insone que se revela realidade e não sonho somente ao nascer do sol, todas as palavras aqui escritas só serão reais com a entrega do correio.
Não por acaso, à mesma pessoa que o cartão evocou e por amor de quem perdi o sono.

3 pensamentos sobre “O Homem dos Cartões

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