Nudez – 2: Segredos de alcova

Depois que senti a boca seca e a garganta amortecer, ele ainda tentou me dizer alguma coisa, mas mandei que se calasse. Eu mesma estava emudecida pelo pânico. Sim, pânico. Mas ele tinha necessidade de falar e o fiz engolir as justificativas com um tapa em cheio na boca, de tal maneira que envergou o tronco com o impacto.
Agredi-lo pareceu-me pouco pela dor que me causava e o mesmo gesto aumentou ainda mais meu sofrimento. Nunca havia batido em ninguém. Nem em minhas irmãs. Afastei-me confusa, com a mão – que ainda levava a ardência do tapa – cobrindo a boca.
Ele não reagiu.
Só esfregava a parte atingida do rosto.
Minhas lágrimas eram tão abundantes, que eu não vencia secá-las e sentia que me pingavam do queixo. Minha mente produzia imagens que ele não me detalhou, mas que eu era capaz de imaginar: a outra se despindo sob os beijos dele, espalhando os seus fluídos pelo corpo do MEU homem. Estávamos os dois em seu quarto e, me questionei se no silêncio da madrugada, eram os meus gemidos ou os dela que ecoavam em sua lembrança.
Ele disse que me amava.
Eu tive certeza que se apaixonou por ela, ou não teria me traído. Eu o conheço bem demais para acreditar na hipótese de que foi “apenas sexo”. A dúvida que me matava era o motivo pelo qual não estavam mais juntos. Será que o caso terminou porque teve certeza de que me amava, ou porque ela resolveu deixá-lo? Até pensei em provocar a resposta com uma ofensa, mas tive medo dela. Sei o quanto ele é sincero e a perspectiva de um caso terminado por ela e não por ele, só pioraria a minha decepção.
Depois do tapa ele estava calado, mirando os próprios joelhos. Odiei continuar desejando-o ainda naquele momento. O paradoxo era que, lembrar do seu corpo colado ao meu, me fazia pensar mais e mais nos encontros furtivos. Pensei nos risos que os dois compartilharam, nos encantos daquela mulher que eu não queria saber quem era, no mundo secreto que eles criaram sem o meu conhecimento, durante todo aquele tempo.
“Um mês”, ele disse.
Era muito tempo. Um beijo já seria demais, quanto mais…
E então, horrorizada, pensei nos detalhes do meu amado sendo desvendados por alguém que não eu mesma. O romantismo, o carinho, a atenção, o corpo, o sinal de nascença, tudo o que eu acreditei que era meu. E só meu.
Por que ele me contou aquilo? Provavelmente fora um impulso de auto-flagelo, para se redimir da culpa que sentia. Atitude egoísta. Eu preferia não saber nunca, a ter conhecimento daquela intrusa que invadiu nossa alcova e vasculhou nossa intimidade.
Me rendi aos soluços, que me sacudiam e me punham a alma do avesso.
Ela desvendou nossos segredos. Ele me tirou o consolo da ignorância.
Senti-me nua.

4 pensamentos sobre “Nudez – 2: Segredos de alcova

  1. A única palavra que me vem à cabeça: empatia.

    Da primeira à última linha, eu me senti como se fosse o protagonista do drama, como se meu o coração a doer, como se minha a realidade que foi toda descontruída à força. Uma expressividade tão cativante não merece nada menos do que os mais sinceros parabéns.

    Um beijo de alguém que acaba de se ver transformado em fã.

  2. Desculpa o verbete, mas: Fodástico!!!
    São palavras que desenham todo um sentimento perturbado, algo tão… tão… profundo, se é que essa é a palavra certa! Enfim, me sinto sem palavras em meio a tantas que me vem a mente para descrever o quanto gostei… Parabéns! =)

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