Nudez – 1: Intimidade

Tomou um banho longo e relaxante, com a calma que só um amante correspondido pode ter. Demorou-se quase uma hora no banheiro da suíte, fazendo a barba com mais cuidado que o costume, querendo sentir a água morna do chuveiro gota por gota.
Sabia que saindo de lá, a encontraria na cama, o que aumentava a sua satisfação.
Saiu esfregando o cabelo molhado com a toalha que em seguida envolveu na cintura. A abertura da porta liberou o vapor do chuveiro e deu ares de sonho para a cena que o aguardava no quarto.
Ela já havia acordado. Aproveitou a demora do banho para retocar as unhas do pé com o esmalte vermelho, sem se incomodar em se vestir novamente.
O movimento e o barulho da porta a fizeram erguer o rosto em sua direção. Murmurou um “bom dia” através do sorriso divertido e tornou a se concentrar nos próprios dedos.
Ele permaneceu apoiado no batente observando-a e, de repente, conseguiu ver poesia ali, nas pernas dobradas e na curva das costas brancas que terminavam com uma leve cobertura de penugem, a linha da coluna nítida em arco. Sua cintura e quadris apresentavam algumas dobras, provocadas pela posição debruçada, os seios escondidos por trás das coxas. Os cabelos estavam presos com uma presilha, mas algumas mechas teimavam em escapar, obrigando-a a interromper o trabalho toda hora, para ajeitá-los novamente atrás das orelhas.
E como quando repetimos uma palavra diversas vezes até que começa a nos soar estranha aos ouvidos, de tanto contemplar a cena ele começou a se sentir um estranho no ambiente. No começo não entendeu muito bem, mas logo notou que o conjunto todo era tão natural e ela estava tão confortável dentro da própria pele, que ele teve uma incômoda necessidade de cobrir o corpo, para não interferir com sua nudez na doçura do esmalte vermelho e do cabelo rebelde. E quanto mais atentava à situação, mais o incômodo aumentava, fazendo-o esquecer do tempo que estava ali parado.
Foi então que, assoprando os dedos dos pés ela dispara, em tom de gozação:
_Tire uma foto, dura mais.
Era uma frase clichê, mas tinha um significado especial entre eles. Um significado maior do que uma simples zombaria de moça bonita: fora o que ela lhe disse quando se conheceram.
Com a menção, ele lembrou-se do universo que dividiram todo aquele tempo, através de sussurros e dos corações acelerados, de seus detalhes e segredos e imediatamente, sentiu-se parte da cena.
Não mais resistindo, largou a toalha no chão e se jogou sobre a cama, agarrando-a desajeitadamente de propósito.
Só para ela ter de refazer a pintura nas unhas.
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5 pensamentos sobre “Nudez – 1: Intimidade

  1. Não sei, mas toda vez que leio um de seus contos, consigo visualizar as cenas com grande facilidade. Acho que é a forma com a qual você descreve cada ato, cada situação. É surpreendente como você consegue nos transportar para outros mundos. Parabéns!

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