Por Lygia

(ou “Sobre a Arte de Pagar Micos Internacionalmente”)

Tudo por um acúmulo de primeiras vezes que hão de acontecer na próxima sexta-feira, entre elas minha primeira viagem de avião na vida. O fato é que minha busca pelo livro “Antes do Baile Verde” (é necessário escrever tudo com maiúsculas?) de Lygia Fagundes Telles já era antiga naquela livraria (a Cultura, na Augusta x Paulista) e as circunstâncias me diziam que seria interessante ter este objeto de meu desejo em mãos no momento em que eu estivesse enfrentando minha ansiedade e mais uma porrada de medos antigos.
O que não vem ao caso, mas é de meu interesse contar – mesmo porque esse cafofo é meu – é que este livro e esta autora foram quem conceberam a ânsia da escrita nesta que vos digita. Traz-me lembranças nostálgicas de meu colégio e da querida professora Ernesta e ter algo tão passado e concreto em minhas mãos me trará segurança. Quero acreditar nisso tanto quanto vocês, juro.
O que (finalmente) vem ao caso, é que eu entrei na Livraria Cultura decidida a levar o livro, já que é raro o momento que tais impulsos me vêm e eu tenho condições suficientes em minha carteira para levar a empreitada a cabo. O impulso veio e eu tinha dinheiro. Subi a escadaria com passos decididos e, também decididamente, marchei até a prateleira de literatura nacional. Sentia-me a encarnação mulher que sabe o que quer. Podia ver os olhares me acompanhando e os sussurros admirados dos habitantes daquele antro sagrado: “Essa mulher conhece o caminho e não hesitará diante dos obstáculos.”
Pffff.
Cheguei à prateleira. LFV, Dalton, Machado, Sabino, Lygia… Lygia… Lygia. Nenhum destes era. Ah! Tem mais na prateleira de cima. Lygia… Lygia… Lygia… Ué… Ah! Tem outra prateleira acima. Lygia… “Ciranda de Pedra”, “A Estrutura da Bolha de Sabão”, “As Meninas”, “Antes do Baile Verde”! Este!! Lindo.
A questão é que a porcaria do livro estava há cinco prateleiras acima da minha cabeça. E, como temos leitores novos em meu adorável sótão de memórias, acho que é importante destacar que a minha falta de altura não passa dos 1,51m. Não, queridos. Não foi erro de digitação. E entendam que o “e um” é muito importante. Grata.
Não havia escadas, nem vendedores por perto. Quase vencida, já cogitando a possibilidade de escalar a muralha de livros para alcançar meu graal, vejo com a visão periférica, felizmente concedida às mulheres, alguém muito alto e acompanhado de um amigo vindo pelo meu lado direito. O incauto me passa pelas costas e antes que o visse à minha esquerda já havia lhe segurado o braço sem ao menos olhar-lhe nos olhos.
“Moço, pode pegar o livro pra mim, pelamordeDeus por favor?”
“Sim, posso! Qual é?”
Aponto com os o bracinho curto estendido “Aquele ali ‘Antes do Baile Verde’ lá em cimão”.
O rapaz toca em um livro. “Aqui?”
“Não. ‘Antes-do-Baile-Verde’”.
Muda de livro. “Aqui?”
“Não. ‘antesdobaileverde.’”
“Aqui?”
Deka, sua ameba, o rapaz provavelmente não lê em português.
Seguro o seu braço e o apoio sobre o meu querido livro. “Este, moço.” Ele entrega em minhas mãos. Eu o agarro (O livro. Não o rapaz.) e preciso me controlar para não dizer “My preciooouuus”.
“Thank you so much!”
Ele sorri satisfeito e responde “You’re welcome.” e sai inglesando sua conversa com o amigo.
Saltitei feito um pirilampo do bosque até o caixa, radiante e realizada, já não uma mulher decidida, mas uma criança com seu brinquedinho novo, com a diferença de que o pagamento do “brinquedo” me saiu do suor do rosto. Que seja.
É meu e ninguém tasca. Porra.
Já dona da preciosa sacolinha, saio toda pulandinho da livraria, com os cabelos ao vento, quando a realidade me cai sobre a cabeça como um cocô de pombo: eu havia acabado de abordar um estrangeiro, no meio do nada, pra pedir um favor e por sorte e iluminação Divina, não o chamei de burro por não entender o que eu queria. Se entre brasileiros tais arroubos de espontaneidade já são vistos como cara-de-pau, cheguei à conclusão de que não contribuí em nada para melhorar a imagem das brasileiras lá fora.
Parabéns para mim. [aplausos]
Embora grande, [/aplausos] o poder do mico não foi o suficiente para diminuir o triunfo pelo prêmio conquistado comprado.
Agora é aguentar até sexta para ler, como se eu já não tivesse motivos o suficiente pra querer que tal dia chegue logo.

7 pensamentos sobre “Por Lygia

  1. Poxa, achei que o mico tinha sido muito maior quando você disse.
    Fico o fim-de-semana todo esperando seu post sair agora me sinto até decepcionado, esperava um mico muito maior.
    Quanto a sexta, esperamos que chegue logo a sua tanto quanto a minha (que tá longe e eu já estou contando os segundos).

  2. O que importa é que agora você tem seu precioso livro!
    Ah… também faço parte do “clube dos tampinhas”… sei beeeeem o que é passar por esse tipo de situação… me identifiquei…hahahaha
    Abração!

  3. Mais um do “clube dos tampinhas” se apresentando🙂
    Esse assunto me lembrou aquele nosso chat/programa de auditório, hahaha!
    Aproveite sua viagem! Quando voei pela primeira vez também me empolguei muito.
    Fui tirando fotos desde o embarque, depois passando pelas nuvens, cidadezinhas, e por fim com a Isadora Ribeiro, que estava no mesmo avião que eu😀

  4. Entendo perfeitamente o drama de ser baixinha. E acabou de me bater uma saudade enorme do tempo que eu ainda conseguia roubar minha mãe e sair saltitante da livraria.
    Adorei o post.
    =D

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