Fraqueza

Chegou no bar transbordando em ódio, pisando duro. Arrastou a cadeira de ferro pra sentar e não se importou com o rangido agudo do ferro no piso, nem com os olhares incomodados com o barulho.

Sentou-se jogando a bolsa na cadeira ao lado e os cabelos para trás num gesto rápido.

O garçom apareceu com o caderno de notas e ela despejou as frustrações da semana pedindo uma cerveja. Para beber sozinha.

Quando a garrafa chegou, virou o primeiro copo como água. Encheu o segundo e ficou girando enquanto o olhava, perdida em divagações.

Podia sentir as pulsações do coração batendo, devagar, mas com força. Porca miséria essa vida, que todas as bombas explodem ao mesmo tempo. Tomou um gole do copo.

Mania imbecil de andar com o coração na mão, só esperando o primeiro esperto que o tomasse para si. O resultado estava ali: sozinha no bar, ela, a cerveja e a ilusão.

O negócio era proteger melhor o coração.

Uma lágrima escorreu solitária. Limpou-a com um gesto aborrecido e, ao percorrer o lugar com os olhos para certificar-se de que ninguém havia presenciado seu momento de fraqueza, deu com outro par de olhos desconhecidos, no outro canto do estabelecimento, que a encaravam francamente.

Sustentou o olhar por algum tempo, mas logo desistiu. Não estava com saco para paqueras. Entornou o segundo copo na garganta e o encheu novamente. Pegou o celular na bolsa para apagar o número dele da agenda.

E a degringolada no serviço? Andava tensa demais com aquilo tudo. Precisava se controlar mais, ou teria um novo problema para se preocupar.

No caminho de volta para a bolsa, sentiu-se observada e viu que o desconhecido ainda a olhava. Dessa vez tirou os óculos escuros e o encarou de cenho franzido. Quem sabe assim ele se tocava?

O celular esquecido em sua mão vibrou. Estremeceu, com medo (e uma leve esperança que nunca admitiria) de que fosse ele. Não era. Era a amiga convidando para uma pizza à noite. Respondeu a mensagem com uma desculpa qualquer. Queria ficar sozinha.

Apoiou os cotovelos sobre a mesinha e começou a se incomodar com a insistência do cara. Ele a observava por uns instantes, baixava os olhos e tornava a encará-la. Ela achou melhor pedir a conta e sair dali. Flertar era a última coisa que pretendia, naquele instante.

O garçom voltou com o troco na mesma hora que o rapaz da outra mesa levantou e veio em sua direção. Apressada, juntou a bolsa e a blusa, se atrapalhou com o troco e deixaria o dinheiro lá mesmo se o insistente não fosse mais rápido e, sem dirigir-lhe uma única palavra, deixou uma folha de papel em sua mesa. Com um gesto de cabeça e sem sorrisos, passou direto.

Na folha, um retrato seu, com traços rápidos e aparência de rascunho. Mas não havia dúvidas de que era ela. Sentiu remorsos por julgar mal a atitude do rapaz.

Com o papel entre os dedos, admirou os detalhes do retrato. O óculos, a regata, os cabelos caindo sobre os ombros e as costas. Os braços fechados de tatuagens.

Enfim um detalhe lhe chamou a atenção. O desconhecido captou algo mais do que a sua aparência. Na hora compreendeu que sua lágrima não lhe escapara despercebida e aquele desenho era muito mais do que um passatempo. Era uma resposta. Olhou na direção onde ele se fora, queria conversar com ele, descobrir um pouco mais sobre aquele homem, mas ele já tinha desaparecido.

Voltou a olhar-se. Lá estava, como num reflexo em preto e branco, o queixo erguido e os ombros jogados, completando a atitude desafiadora. Mas ela era mulher e fora feita para amar. O coração não estava mais em suas mãos.

Estava no lugar certo: no peito.

A imagem que ilustra este post é de autoria do Glauco Guimarães. Vi em seu blog e a inspiração surgiu. Dê um pulo lá.

4 pensamentos sobre “Fraqueza

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