Remoto controle

Enquanto os meus dedos gelados percorriam o teclado, eu me perguntava de onde vinha aquele buraco no coração que estava deixando o vento frio entrar. Houve algumas tentativas frustradas de aquecer-me com roupas e cobertas, em frente ao computador. Mas logo compreendi que o frio partia de dentro pra fora e o calafrio que me arrepiava a pele permaneceria, independente da quantidade de peças de roupa que me cobrissem.

Em parte embriagada pelas palavras que metralhava na tela, parte controlando psicologicamente a sensação de dormência nas falanges, continuei a digitar, descobrindo que a lucidez das minhas palavras nunca me deixariam usá-las como fuga.

A fresta no coração continuava a incomodar, quase uma ressaca moral, um arrependimento gelado, uma ausência pessimista. Queria voltar no tempo para desfazer meus primeiros erros.

No meio do meu almoço ele entrou na galeria proibida, acompanhado da irmã. Abordou-me do alto de seus doze anos, oferecendo-me muito mais do que uma caneta e eu neguei. Busquei com os olhos o segurança temendo encontrá-lo por perto, com medo de presenciar pela enésima vez a constrangedora cena do pedinte/vendedor/andarilho/whatever sendo expulso sob os olhares sentenciosos de todos os cidadão respeitáveis ali presentes. Não aconteceu, embora. Tive algo muito pior.

_Moça, quer uma caneta?

Mostrou-me as canetas de forma retangular, sem tampa, daquelas que se fecham dobrando a ponta para dentro, girando pela haste metálica em seu entorno.

_Não, muito obrigada – acompanhando com meu olhar mais simpático e carinhoso.

_É qualidade, moça. Caneta mágica, duas por um.

_Não, muito obrigada. – leve meneio da cabeça, com um sorriso cruelmente piedoso. Ele precisava sair logo dali, antes que o segurança voltasse.

_Tá certo. Boa tarde.

Ele se foi, juntou-se à irmã que o esperava na calçada.

Se foi com ela, com a caneta e com a magia.

Levou embora consigo a magia que eu deixei escapar pelo vão dos dedos. A magia que falta no cotidiano de qualquer um. Aquele breve momento insignificante que passa em um piscar de olhos e, numa frase, num gesto, desfaz a esperança depositada numa ilusão ingênua.

A magia era a fagulha no olhar daquele garoto. Ele acreditava na magia da caneta que vendia. A sua magia brilhou no meu castelo de cartas desfeito, no meu coração partido e eu a deixei ir assim como chegou.

Terminei o texto corroída pelo remorso, comparando o episódio com meu rumo e chegando à conclusão de que não vale a pena abrir um buraco para tapar outro.

Esperar é o segredo e o destino. Amar ao outro como a ti mesmo, significa engolir as próprias dores quando elas podem doer mais fora do que dentro.

O título se refere à música Esquadros, que eu conheço na voz da Adriana Calcanhoto.

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6 pensamentos sobre “Remoto controle

  1. Texto forte…
    Chegou a me deixar nostálgico e a retirar todos meus argumentos.

    Mas parabéns, mais uma vez.

    Acho que há magia em todos os pequenos detalhes do mundo,
    basta apenas querermos enxergá-la, senti-la e reuni-la para fazermos um mundo melhor.

    Beijo

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