Sonata em si menor

A porta do apartamento se abriu, iluminando seu interior com a luz do corredor do prédio. Ela tateou a parede em busca do interruptor antes de entrar e depositar a caixa do violino no chão. Entrou no hall, desenrolou o cachecol do pescoço e pendurou-o no mancebo, junto ao casaco.

Foi ao banheiro, ligou o chuveiro e deixou que o vapor o tomasse.

Buscou no quarto um roupão, seguiu despindo-se pela sala e chegou ao banheiro já nua, a pele arrepiada. Não demonstrou incômodo pelo frio.

Saiu de lá envolta no roupão, enxugando os cabelos com uma toalha. Na cozinha, chegou a abrir a geladeira para procurar algo, mas desistiu, com um gesto contrariado. Estava sem fome.

Voltou à sala e abriu a cortina, para que as luzes da cidade iluminassem somente o necessário. Apagou as luzes do quarto e da cozinha. Queria que seus pensamentos fossem mantidos sob a penumbra.

Sentou-se na poltrona, mas não permaneceu lá por mais que alguns segundos.

Andou em círculos com os pés descalços no carpete.

Olhou para o violino ainda na caixa com um olhar contraditório, como quem não sabe no que um gesto pode resultar. Ainda hesitou alguns segundos antes de ir pegá-lo.

Sentou-se no pufe sem encosto, com as costas eretas. Nas mãos o violino e o arco. Deixou que o ombro esquerdo do roupão escorregasse para o braço e nele deitou o instrumento, apoiando-o com o queixo.

Fechou os olhos e soltou um longo suspiro antes de começar a deslizar o arco pelas cordas do violino, provocando o som agudo. Na palma da mão esquerda descansava o braço, as pontas dos dedos vibravam delicadamente sobre as cordas com a melodia.

Podia senti-la saído de dentro de si, assim como as lembranças. As notas corriam por suas veias e envolviam seu corpo que se curvava para frente e para trás, de acordo com os compassos.

Estava de volta ao palco. A partitura à sua frente era somente um apoio à música que já sabia de cor havia algum tempo, depois de semanas estudando-a.

Diferentemente do maestro. Este sim tomava sua atenção, pois era quem definia o sentimento de cada passagem.

A batuta subia e descia, marcando os tempos.

Ela não precisava olhá-la. Podia ler-lhe os sentimentos nos olhos que a queimavam. Podia acompanhar a ternura das partes calmas e a paixão do clímax. Ele movia os braços, o tronco, a cabeça no frenesi de reger a orquestra, mas seus olhos nunca a perdiam.

Ele regia a ela. A melhor música que ela havia feito. A calmaria. O clímax. A delicadeza e a força. Seus braços, suas mãos. Presto ma non troppo.

A música da sala chegava ao seu auge e ela atacava o violino sob lágrimas.

Os dedos tremiam, a garganta pulava a contragosto com os soluços.

No final do trinado, pouco antes da fermata, ainda no êxtase, uma corda arrebentou.

O estalo feriu-lhe os ouvidos, arranhou o rosto abaixo dos olhos e atingiu-lhe o anelar com força. O sangue escorreu.

Já não controlava o choro. Deixou que os braços caíssem ao lado do corpo, ainda segurando firmemente o instrumento na mão esquerda e o arco na mão direita.

Curvou o tronco sobre as pernas, dando vazão total ao vazio que a dominava. Não sabia se havia errado na ligadura, no contratempo ou no staccatto. Bem provável que em nenhum deles. Mas não havia sido uma sinfonia boa o bastante para que ele desejasse continuar a regê-la.

Perdeu o compasso e a compostura. Seu coração desafinou, sua alma perdeu a harmonia.

Desistiu. Não haveria música sem o maestro.

6 pensamentos sobre “Sonata em si menor

  1. O si menor eh o tom da estabilidade, perfeito para que a musica sirva à exposição dos sentimentos. As cordas arrebentam, machucam, o silêncio aparece, mas logo em seguida o instrumento é recomposto, o músico se restabelece, e a música atinge seu intento. Lindo o seu texto. Parabéns!

  2. Como já disseram, interessante a condução do texto. Igual a um sinfonia ele não mostrou um conflito, não obrigou ninguém a continuar a leitura, ao mesmo tempo gerou um clima gostoso (fiquei com vontade de andar descalço num tapete até) e acabamos todos frustrados com o súbito fim da música.

    Romance sangrando. Muito bom

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