Gênesis e Êxodo

_Quer almoçar comigo, hoje?

O convite foi repentino, a pegou de surpresa. Mas ela não pensou duas vezes.

_Claro! Vamos sim. Onde nos encontramos?

Marcaram na esquina da avenida com a rua do trabalho dela.

Agradeceu intimamente pela inspiração matutina que a fez gastar um pouco mais de tempo ao se arrumar pro serviço. Foi sorte. O dia estava frio, com uma garoa fina e insistente. Sim, muita sorte. Ainda faltava meia hora para seu almoço, mas a ansiedade começava a crescer. Os dois ainda não se conheciam.

Tentou concentrar-se nas tarefas, focar a atenção nos documentos à sua frente. Foi necessário certo esforço mas conseguiu preencher os minutos rastejantes, embora as dúvidas insistissem em se insinuar em seu pensamento. “Como vai ser? Será que ele vai ficar tímido? Será que vamos conseguir manter uma conversa descontraída?”. Eram amigos havia algum tempo. A barreira que separava as horas de conversa e o momento dos olhos nos olhos pela primeira vez é que era a questão.

O relógio marcou seu horário pro almoço e ela começa a juntar as coisas rapidamente. O celular vibra com uma mensagem dele: já a esperava no local combinado. Correu pegar a bolsa, jogou tudo lá dentro na maior desordem e começou a subir a ladeira quase correndo, desviando-se dos transeuntes que vinham em sentido contrário.

No caminho outra dúvida: “Será que vou reconhecê-lo? Até hoje só vi uma foto sua e foi de longe… Bem, acho que não haverá muitos garotos parados na esquina.”

A foto lhe dera poucas certezas e muitas impressões. Sabia que ele era branquelo e usava óculos. Um nerd, claro. Mas o estereótipo se fundiu com uma impressão errada. Visualizava-o como um garoto magro (magrelo) e aparência de menino. Errada, saberia.

Agora só uma travessa os separava. Ainda não conseguia vê-lo, através da multidão de trabalhadores. “Pelo menos a garoa parou”. Sinal verde para pedestres. Atravessou.

De longe já conseguia ver alguém parado, com as costas apoiadas na parede, digitando no celular. Ele era alto. E usava um blusão marrom.

As panturrilhas latejavam por ter subido a rua com tanta pressa. Ao se aproximar, as dúvidas foram sendo totalmente substituídas pela admiração. Não era um garoto. Era um homem.

Quando estava próxima e ia abordá-lo, uma moça à sua frente para e pede informações ao rapaz. Ela tenta parar para esperar, mas o fluxo dos pedestres a empurra. Ele a vê e sorri. Não sabe se a cumprimenta ou dá atenção à garota que insiste na informação. Ela contorna a coluna e o espera. A garota das informações quase tromba com ela.

Finalmente encaram-se frente a frente.

O sorriso dele novamente. Alguém desliga o resto do mundo.

_Oi!

_Oi…

Um abraço. O abraço.

Do almoço ela lembra de algumas coisas. Da voz dele. Do sorriso infantil no rosto barbado. Da hora em que ela derrubou macarrão na roupa (novamente a sorte: a roupa era preta). Ele fez questão de ir buscar mais guardanapos.

Lembra-se da volta, quando a acompanhou até o serviço. Enquanto desciam a rua – dessa vez sem nenhuma pressa – a garoa tornou a cair. O vento a fazia bater direto em seus rostos.

_Essa chuva vai borrar minha maquiagem.

Ele entra na frente dela, para protegê-la da chuva e começa a andar de costas. Seus óculos estão cobertos de pequenas gotas. Ambos disparam a rir.

Ele a olha no fundo dos olhos.

_Seus olhos são ainda melhores pessoalmente.

Ela fica sem resposta. Seria apenas a primeira vez.

_Adorei te conhecer.

_Eu também. Me diverti muito.

Um abraço mais longo e terno, agora de despedida.

_Bom… A gente se fala.

_Tchau.

_Tchau.

Ele se foi. Ela entrou na empresa.

Foi ali que tudo mudou. Agora as palavras soltas na teia tinham uma voz – suave e segura. E as confidências trocadas tinham um rosto. O rosto de um homem.

Foi assim que a realidade e a emoção superaram as dúvidas, as perguntas foram trocadas e conceitos mudados.

E agora seu coração pulsaria em uníssono com o dele, mas isso já é outra estória.

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12 pensamentos sobre “Gênesis e Êxodo

  1. Muito bom seu texto.
    Parabéns!

    E é assim que muitas das mais histórias começam, né?
    Um passo de cada vez, um acontecimento de cada vez.
    E ai pouco a pouco o sentimento “amor” vai nascendo…

    Excelente texto mesmo!
    Beijo

    • O coração é livre de verdade.

      Ele pouco se importa com conveniências e convenções.

      Se torna prisioneiro por escolha própria, sem se importar com o que vão pensar de seus atos, muito menos com o que a nossa razão acha de tudo isso.

  2. Por um momento jurei ser o protagonista.
    Nerd e em busca de um amor…
    rsrsrs…

    Muito bom o conto.
    Simples, objetivo e extremamente gostoso de ler.
    Assim como opeixequecomiaasestrelas estou viciado neste blog também
    Parabens.

    • Obrigada, Rainier.

      Aposto que, atualmente, muita gente se identificará com a história que contei.

      Não precisamos ir muito longe para encontrar boas histórias. Às vezes só precisamos olhar para dentro 😉

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