Parasitas

Tinha cinco anos e a mãe o levou para o playground do parque. A tia acompanhou porque elas tinham muito o que conversar. Para ele a novidade era achar o parquinho vazio. Ter o balanço só pra ele e o escorrega sem fila.

Afastou-se dos bancos onde a mãe e a tia sentaram e começou brincando de fazer montinhos de areia. Ainda era cedo e a areia estava molhada do sereno. Depois de cansar dos montinhos, deixou-se cair sentado e mirou o céu azul por alguns minutos. Não pensou muito no tamanho daquilo, ou de onde vinha aquela cor. Só lembrou-se da mãe apontando pra imensidão quando contou do lugar onde a avó estava morando agora.

Mas quando se sentou no balanço, notou algo dentro do tubo de concreto que não estava lá nos outros dias. Parecia uma trouxa de roupa suja, mas tinha pés.

Aproximou-se sem medo, apenas com curiosidade. Acocorou-se e ficou a observar a trouxa que respirava. Primeiro ela só respirou. Mas ao virar-se para o lado, deu com o par de olhos redondos que a observava e levantou-se num sobressalto, batendo a cabeça no topo do tubo. O garoto também se assustou e caiu sentado. Antes que ele chorasse ela pôs um dedo sobre os lábios e lhe pediu silêncio. Ele já entendia aquele sinal. Não chorou.

_Você mora aqui?

_Não. Só dormi aqui hoje.

_Mas por que não dormiu na sua casa?

_Porque eu não tenho casa, ué!

O garoto entortou a cabeça para o lado sem compreender. Como alguém podia não ter casa?

_Mas sua mãe tá aonde?

_Não sei.

Não compreendeu novamente. Estava além do que o mundo já lhe havia oferecido como experiência. Então resolveu ignorar e matar outra curiosidade.

_É legal morar no parquinho?

_É um pouco frio à noite.  – A garota não estava a fim de conversa. Tinha outras preocupações. – Tem alguma coisa pra comer?

_Tenho um lanche que minha mãe sempre traz. A sua não trouxe lanche?

_Minha mãe não está aqui. Vá lá buscar o lanche.

Levantou-se e correu até a mãe.

_Mamãe, conheci uma menina que mora no parquinho!

_É, filho? Que legal!

_Me dá o bolinho pra eu dividir com ela?

_Deixe-me limpar suas mãos primeiro. Tome. – Entregou a embalagem aberta ao filho e voltou-se para a irmã – Então quando nos encontramos de novo…

O filho não ficou para ouvir o resto da conversa, já que a mãe, a princípio, não pareceu muito interessada no seu assunto. Correu até o tubo com a merenda. Entregou metade do bolinho para a garota, que devorou sua parte sem conseguir evitar olhar cobiçosa para a parte que ainda estava nas mãos do garoto. Um súbito entendimento o fez estender também a sua porção a ela.

_Obrigada – balbuciou.

_De nada. Pode comer. Em casa tem mais. Aí você pode esperar até sua mãe trazer o seu.

_Minha mãe não vem trazer meu lanche. Ela não sabe que estou aqui. Eu não tenho mãe.

Alguma coisa começou a se despertar naquele coração até então ingênuo. Um fio gelado de realidade lhe passou pela compreensão e ele descobriu que nem todas as crianças tinham mãe, casa e lanche sempre que queriam.

Ainda assim quis ajudar:

_Você pode morar lá em casa, até achar uma mãe pra você!

_Não posso.

_Pode sim, quer ver? Mãee! Ela pode…

Não foi necessário terminar a frase. A mãe, que ao fim de alguns segundos estranhou o que o filho lhe dissera, apareceu em suas costas, pegando-lhe pelas axilas e o afastando o mais rápido possível de lá.

_Você não pode conversar com essas pessoas! Elas são más!

_Não é não, mãe! Ela só tinha fome. Precisa de uma casa e uma mãe.

_Ela é suja. Não pode ficar perto dela. Vai pegar piolhos.

A mãe parecia bastante assustada ao afastar-se apressadamente.

Foi então que veio a segunda grande descoberta: pessoas más não tinham casa nem mãe, eram sujas e tinham piolhos. Não devia aproximar-se delas.

O tempo veio e ele cresceu do jeito que a mãe lhe ensinou: ignorando a realidade que não lhe dizia respeito e atirando algumas moedas de vez em quando para acalmar a consciência. Mas de longe, para que não pegasse piolhos.

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9 pensamentos sobre “Parasitas

  1. Esse trecho é fatal: “Foi então que veio a segunda grande descoberta: pessoas más não tinham casa nem mãe, eram sujas e tinham piolhos. Não devia aproximar-se delas”.

    Cada dia melhor na arte de tecer histórias.

    • Olá, Rafael!

      Obrigada pelos elogios. É muito bom saber quando as pessoas curtem o que a gente faz, né? Incusive sou frequentadora dos seus quadrinhos também =P, então acho que estamos quites hehehe.

      Dei uma fuçadinha por cima, no blog que indicou e até reconheci o nome de um personagem lá, o Zíper [nhóm. Adoro cãezinhos ^^] E favoritei para ler com mais calma em casa.

      Valeu pela força que me [“nos”, agora com o Wellington participando regularmente do blog, né?] tem dado no twitter também! E comente com mais frequência. É ótimo ver as diferentes interpretações que as pessoas têm, do que eu escrevo.

      Beejo!

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