Livre Arbítrio

Sete da noite. Hora que os trabalhadores cansados estão voltando para suas casas e se tornam um pouco mais distraídos que o normal. Era a hora que ele saía para trabalhar.

Vestiu-se com uma roupa comum, com cores que não chamassem a atenção e, mentalmente, escolheu uma rua movimentada. Sua profissão exigia discrição.

Ao chegar a tal rua, começou a andar de maneira despretensiosa. Camuflou-se perfeitamente ao enxame de pessoas que invadiam os numerosos bares. Localizou sua vítima: uma mulher se afasta do burburinho para falar ao celular. Ela anda de um lado para o outro, olhando para o chão, parando por alguns segundos e recomeçando os passos em seguida. Uma das mãos segura o aparelho. A outra tampa o ouvido esquerdo.

Ele fixa os olhos em seu alvo sem a mínima alteração no ritmo dos seus passos. O plano é simples: se aproximar da garota distraída como se fosse mais um freqüentador da noite, olhando apenas para a frente. “Não a encare”. Quando estiver próximo o suficiente, ergue o braço o mais rápido possível, toma-lhe o telefone simultaneamente a um breve esbarrão e se mistura às demais pessoas, antes mesmo que ela perceba o que ocorreu. Em noventa por cento das vezes, seus alvos não conseguem localizá-lo depois do roubo. Nas outras, o aparelho desaparece de seu poder e surge como por mágica no chão, aos pés do furtado.

A mulher continuou sua dança. Dois pra lá, três pra cá, paradinha, meia-volta.

Ele conta os metros que os separam e sente a adrenalina formigar-lhe nas veias. É obrigado a admitir que adora a sensação.

Desvia de um grupinho, esbarra em duas ou três pessoas. Agora só há uma pessoa que os separa. Aproxima-se, o braço ficando tenso pronto para a ação quando ela se vira de frente para ele. Ela está chorando.

_E como ele está, mãe? Quando terá alta?

Num átomo de segundo ele pensa: “Pai? Avô? Irmão? Cachorro?”.

O braço se ergue. Esbarrão. Os dedos se desviam para o próprio cabelo. A garota lhe pede desculpas entre dois soluços, mas ele pareceu não ter ouvido. Ela continua no celular:

_Tá bom, mãe. Estou indo agora para o hospital.

Ele desaparece para dentro do bar e resolve pedir um whisky.

Maldito coração mole.

6 pensamentos sobre “Livre Arbítrio

  1. Sentimento de um homem qe olha no seu espelho ve, o preparado pra qualquer situacao. Mais a realidade eh diferente da ilusao mostra outro lado qe sabemos qe temos mais nao mostramos pq nossa imagem podera ser outra.

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