O Condenado

Olá, querida.

Eu sei que estas palavras nunca chegarão ao seu conhecimento, mas eu preciso delas. Talvez seja aquele prazer masoquista – que você bem conhece – que me faz relembrar incessantemente da minha dor, só por senti-la novamente, já que onde estou nem o alívio do desabafo me é concedido.

Não estou tão longe de você quanto imagina. Ou quanto gostaria que eu estivesse. E pode ser que até eu mesmo gostaria de estar bem longe daqui. Mas não posso me afastar. Preciso estar perto de você o tempo todo. Ouvir sua voz. Acompanhar o seu dia.

Não é tão difícil, afinal. Atualmente você só vai da casa para o trabalho, trabalho para casa. E estou sendo generoso. Você “trabalha” vendendo salgadinho no trem e quanto à sua casa, que ridículo… Foram erguidas três paredes tortas, de material recolhido de demolição. Sim, três paredes. O cômodo que abriga a cama, o armário e o fogão, foi construído se aproveitando da parede de outra casa, para economizar.

Que miséria.

Quando te conheci na porta da sua escola você não era rica. Mas estava melhor, morando com sua mãe. Você estava tão linda, abraçada ao material, os cabelos castanhos brilhando ao sol e os olhos verdes esfuziantes. Quanto a mim, sabia que a fantasia do “cara mais velho” ia despertar a cinderela em você.

O “namoro” ia bem, até que você engravidar. E quando sua mãe – aquela velha beata – descobriu, enfartou.

Daí pro buraco foi rápido, não é?

Você trabalhou na firma até entrar em licença maternidade, teve o bebê e quando voltou foi despedida. Nem correu atrás dos seus direitos. Sempre foi uma garotinha tímida e ingênua.

Garota mesmo. Eu era vinte anos mais velho que você. E era casado. Por isso te ignorei quando me ligou para pedir ajuda. Minha mulher, que atendeu ao telefonema, ficou pegando no meu pé por meses, querendo saber se você era mais um dos meus casos.

Claro que era! Mas neguei até a morte.

Sim, até a morte. Até aquele maldito câncer brotar no meu estômago e crescer, a despeito de todo rio de dinheiro que gastei com tratamentos. Ainda consigo me lembrar com clareza das horas ininterruptas de dor e dos meus últimos momentos naquela maca nojenta no hospital.

E agora estou aqui. Preso ao seu lado.

Condenado à insônia eterna e a assistir diariamente à sua luta medíocre para manter o seu filho vivo e a mente sã.

Posso chegar bem perto de você. Posso ouvir sua voz e até tocar o seu rosto. Mas você permanece alheia. Nunca pode, nem poderá me notar.

E na minha inexistência macabra, sou obrigado a reviver todas as minhas dores, todas as minhas tristezas e más lembranças. Não posso descansar, não posso sentir nada que os sentidos vivos permitem. Só posso esperar. E enquanto espero é inevitável repensar toda desgraça pela qual sou responsável.

Torno a dizer: preferiria estar muito longe daqui, mas não posso. Preciso estar bem perto de você, para presenciar o momento no qual me perdoará.

E só então estarei livre.

5 pensamentos sobre “O Condenado

  1. Tava me imaginando que tipo de membro da comunidade carcerária escreveria tão bem assim hauahuahua

    Ótimo conto. Em época de filme sobre Chico Xavier, assunto em alta. E queria ver uns contos em que a megera é uma mulher “fiadumaégua” hauhauha

  2. O pós-vida seria então uma prisão?

    Existe uma vertente filosófica que diz ser a vida o próprio inferno, e que pior não dá pra ficar.
    Pensando assim, verdadeira punição seria ele voltar à vida como pedinte, em um dos trens que ela “trabalha”.

    —-

    Ótimo conto, Deka! De fazer pensar.

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