Vai passar

Ele todo era pressa: a camisa torta, o paletó fora do lugar, a gravata esvoaçando por cima do ombro. O único sinal de que sentia a subida era o suor que escorria abundante, enquanto corria ladeira acima.

Nas mãos trazia uma enorme garrafa de coca-cola, como se fosse o troféu que comprovaria o cumprimento de sua missão.

Seus pés atingiam rápida e sincronizadamente as pedras da calçada. Ele desviava das pessoas e dos postes gingando o corpo. O objetivo óbvio era chegar rápido, sabe-se lá onde.

Um radinho de pilhas chiava com uma música do Chico Buarque.

“passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída”

Ele não se importaria com o resto do mundo, contanto que o mendigo da esquina não houvesse se levantado e, totalmente bêbado, cambaleasse dois passos pro meio do seu caminho.

As pessoas que viram a cena se encolheram diante da iminência do choque. Foi a rainha das trombadas. A garrafa que o mendigo carregava entornou no terno do “Forrest” e caiu espatifando-se. A coca-cola foi prensada entre os dois corpos e, ao atingir o chão, explodiu, jorrando espuma em todos os envolvidos. Pra completar o ridículo da situação, o equipamento automático da loja de fantasias – que abrigava o vadio sob seu toldo – começou a disparar bolhas de sabão.

Ele ficou estático. Seus olhos arderam com o álcool evaporado, recendendo a pinga barata. O bêbado não. Começou a gargalhar e caiu sentado.

De repente ele se deu conta de tudo. Da subida, do suor, da hora, do tempo, do toldo, da loja e do radinho de pilhas.

Olhou para roupa molhada, olhou para a garrafa de coca que, praticamente vazia, rolava ladeira abaixo. Abriu os braços como se fosse se desculpar de algo, mas não fez mais nada.

Alguém esperou que ele xingasse o bêbado, que falasse algum palavrão.

Ele deu meia-volta e começou a caminhar. Dessa vez lentamente e ladeira abaixo.

Olhou para o céu. Olhou para trás. O mendigo estava deitado.

Olhou para dentro de si. Ele tinha tudo: casa, comida, família, roupas e sapatos. Mas não se dera conta disso. Não até aquele momento.

Agora cada passo tinha o som fofo de sola molhada.

Um ônibus de excursão passou ao seu lado, cheio de crianças gritando. Elas lhe acenaram. Ele as olhou como se nunca houvesse visto crianças antes.

Chegou de volta à padaria. Pegou outra coca na geladeira e pôs no balcão. O balconista precisou repetir o preço duas vezes. Ele deu uma nota de vinte e esqueceu de pegar o troco.

A volta foi mais clara e mais cruel. Havia pássaros em árvores que ele nem notara na primeira subida. E estes pássaros cantavam. Alguns pombos alçavam vôo, causando-lhe sobressaltos e ele erguia os braços para se proteger. Os carros passavam buzinando. As pessoas conversavam. A água corria na sarjeta.

Houve trovões, vento e a chuva caiu. Os pingos eram frios.

Quando chegou na loja de fantasias, o mendigo ainda estava lá. Mas agora sentado ao abrigo da chuva.

Desajeitado, ele estendeu a garrafa de coca-cola para o andarilho. Este não entendeu muito bem, mas aceitou mesmo assim. Ergueu o braço num brinde. Estava agradecendo. Mais bolhas de sabão.

Depois das bolhas, foi até o ponto de ônibus e esqueceu para onde ia com tanta pressa há poucos minutos antes. Subiu no coletivo esfregando o peito, onde havia levado a trombada.

A realidade dói.

5 pensamentos sobre “Vai passar

  1. Como sempre excelente! E não, não digo isso porque sou seu amigo mas porque reconheço seu talento como escritora.

    Engraçado ler isso logo de manhã cedo, me fez lembrar da diferença da minha vida de mais ou menos um ano pra cá. Hoje sou o cara depois da trombada, que observa as coisas a sua volta, caminha calmamente, observa pássaros cantando na rua arborizada em que trabalho.

    Beijos e boa semana.

  2. Que coisa hein? Nunca esqueci o troco de uma nota de 20 pra uma coca. Esse devia tá feliz mesmo hauhauahuah

    Valeu a pena ter demorado pra parir esse texto, que de novo aborda o lado social da conturbação da cidade grande. E eu que brinco de cidade grande não achei mendigo pra trombar e acordar.

  3. Uma musica da minha banda chamada ‘Argila’ resume esses maltrapilhos que tomam em numero cada vez maior as ruas das grandes cidades. O refrão diz: “Amanhã eu preciso entender o cego sem cajado carregando as tristezas do mundo”. Belo texto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s