Epitáfio

_Antes de morrer, meu filho fez seguro de vida – disse a mãe de Júlio ao jornalista. – Pra mim e pro meu caçula, quando ele for de maior.

Antes de morrer, Júlio também se envolveu em uma briga no bar com Walter, traficante e morador do bairro classe média, quando Walter lhe disse para não se meter onde não era chamado, ou iria tocar onde mais doeria em Júlio. A briga foi apartada, mas as juras de vingança partiram de ambos os oponentes.

A “previsão” de Walter se cumpriu com o desaparecimento de Vera, namorada de Júlio, cerca de quinze dias antes da morte dele.

Os amigos de Júlio temeram pela segurança do amigo, quando a vingança virou uma obsessão. Ouviram-no falar sobre tirar satisfações com Walter e ele já não disfarçava a arma sob as roupas.

“Sua quebrada”, como Júlio a chamava, começou a ter toque de recolher. Num acordo mútuo e mudo, as famílias evitavam circular nas ruas depois do anoitecer, diante da iminência do conflito.

Antes do corpo de Júlio ser encontrado, Walter desapareceu. A investigação descobriu a compra de duas passagens para Belo Horizonte, feitas através do cartão de crédito dele.

O corpo de Júlio foi encontrado no final de uma quarta-feira totalmente desfigurado, com ambas as mãos quase decepadas depois de um esmagamento. Nos bolsos da bermuda – a mesma que ele usava quando saiu de casa no domingo – estavam a sua carteira e os seus documentos. Sua mãe reconheceu a corrente com a imagem de Nossa Senhora, que ele ganhou do pai e os brilhantes na orelha esquerda.

Ao lado do corpo estava sua arma, com suas digitais e as de Walter. O caso foi encerrado como homicídio por guerra de gangues. Júlio era oficialmente, mais uma das vítimas do tráfico de drogas.

O que ninguém sabia é que Vera havia comprado as passagens para Belo Horizonte com o cartão de crédito que Júlio lhe entregou antes de morrer. O mesmo cartão que pegou da carteira que roubou de Walter durante a briga no bar.

E o dinheiro que Júlio ganhou traficando drogas foi investido no seguro de vida e numa caderneta de poupança para ser sacado dali a cinco anos sob porcentagem de rendimento. O restante eles guardaram no forro da mala. Precisariam de um pé-de-meia até encontrarem estabilidade.

Vera partiu para Belo Horizonte quinze dias antes do namorado, já sob nova identidade. Os novos documentos vieram de um bicheiro amigo dele que era aidético desenganado pela medicina.

No dia de sua morte, Walter e Júlio se encontraram a sós, numa casualidade premeditadamente forjada pelo segundo. Houveram poucas palavras e não houve luta. Somente um tiro certeiro no coração e depois as medidas tomadas para que não identificassem o corpo.

Entrando no ônibus, Júlio pensou na mãe e no irmão que deixaria para trás. Lembrou-se da conversa que teve com o caçula há apenas um mês atrás, o que mudaria o resto de sua vida:

_Gostaria que você não tivesse que andar com esse revólver na roupa o tempo todo.

_É necessário para minha segurança, mano.

_Você não pode parar com isso?

Júlio pensou um pouco antes de responder. Sorriu tristemente e despenteou os cabelos do garoto.

_Só morrendo…

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