Reconciliação

Naquele dia eu cheguei ao extremo de me revoltar com as palavras, minhas tão queridas amigas. São sempre elas que me salvam das minhas dores mais silenciosas e dos meus desejos mais reprimidos. Tenho quilos de textos que guardo para nunca serem lidos por ninguém. Escrever acabou por se tornar necessidade física, sendo que não consegui-lo me dói fisicamente. Apenas mais uma contradição para me definir: as palavras me libertam e me escravizam.

E talvez por ter essa familiaridade com elas e certa facilidade em orienta-las ao sabor dos meus caprichos, prefiro dizer com gestos antes das palavras. E quando eu as uso é pra valer.

E aí, fui subindo uma das muitas ladeiras mogianas, pensando e repensando com meus botões, sobre palavras ditas, não ditas, ditas e desmentidas ou simplesmente ditas ao vento. E o buraco em meu peito aumentando, o nó da garganta crescendo, o vão provocado pelas palavras que não foram sustentadas pelos gestos tornando-se em um abismo.

As lágrimas vinham até os olhos, mas voltavam sem cair. Por orgulho. Sempre me dou o direito a três crises de choro, porque lágrimas me são tão necessárias quanto as palavras. Porém mais do que isso é se acomodar com uma situação e aí já não posso admitir.

Mas voltemos às palavras. Depois de condená-las pelas desilusões lembrei-me que palavras não podem ser sozinhas. É necessários dizê-las ou escrevê-las, que seja. Mas é necessário que as usem. E aí a ladeira chegou ao fim.

No topo havia um ponto de ônibus e no ponto uma mãe e seu filho. Ela usava o celular e o garoto observava em direção de onde viria o transporte, a mesma de onde eu vinha. Seus olhos – oblíquos pela falha da combinação genética – pousaram em mim. Houve um brilho de expectativa. Um lampejo apenas, mas me fez sorrir.

Passei por ele, acenei e balbuciei “oi”. O seu sorriso ofuscou o meu. Levantou-se do banco e disse com alegria transbordante “Oi!!”

Iluminou o meu dia. Tudo fez sentido. As palavras foram absolvidas.

Uma palavra! Foi apenas uma palavra que me salvou. Uma pequena palavra, um sorriso inocente. Havia me esquecido do que me mantém de pé e precisei que uma criança – eternamente criança – me lembrasse de quem eu sou.

É por momentos como este que vivo. É por isso que escrevo.

10 pensamentos sobre “Reconciliação

  1. pO.. palavras são mesmo phodas!

    gestos já são mais universais, um dedo do meio solitário tem muito a revoltar as pessoas em qualquer lugar do mundo..
    quanto as palavras..
    as falsas cognatas então!! what a f…!
    isso tudo me deixa sem palavras
    pra compensar.. “oi”
    xD

  2. Não pelas palavras, mas pelo coração que as recebe… Algumas vezes, “rosa” na boca de quem as diz soa obsceno. Excelente, simples e melancólico, minha cara… E pelo visto, tenho bastante textos para me atualizar por aqui… Beijos!

  3. A cada post seu vejo que somos mais parecidas do que eu poderia imaginar.
    As palavras também me aprionam e me libertam e a simplicidade de alguma delas nos faz mudar tudo.

    Poderia dizer muito mais. Mas este post pede apenas um: Obrigada.

  4. Olá, Deborah

    A gente se falou hoje na Escola São Paulo, lembra? Você mostrou a escola, explicou o mapa da Augusta e até deu a dica dos refris no frigobar! ;p
    Então, muito fera vc ter largado a publicidade por algo mais cultural. A considerada melhor agência do mundo tem um diretor de cultura. Lembrei disso depois que a gente saiu.
    Bem que você podia contar o que te levou a mudar de vida, de profissão, procurar uma vida mais caótica e cultural, né? Meu email é [endereço removido pela blogueira]
    bjs

    • Oi Fabricio!! Obrigada pela visita (tanto na escola, quanto no blog hahahaha)!

      Já anotei o seu e-mail, vamos manter contato sim ^^ Quem sabe na próxima Campus Party não nos encontramos? heheheh

      Valeu pela dica e volte mais vezes, heim?

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