O Necessitado

Olho mais uma vez para o relógio, tentando segurar os minutos finais do meu horário de almoço que fogem ao meu controle. Remexo a xícara de café com o último gole já frio. Sei que pode parecer idiotice, mas pra mim o almoço só se acaba com o fim do café e por isso eu estava enrolando com o resto.

Estava quase desistindo do café frio, quando um garoto maltrapilho adentra a galeria onde normalmente almoço. A reação do segurança é enxotá-lo de lá, mas o garoto já é velho de guerra e consegue driblar a vigilância do guarda assim que este vira as costas.

Para na mesinha onde um grupo de idosos joga buraco e puxa a manga de um dos homens.

_Tio, o senhor não quer…

_”Escutaqui”, garoto, o moço ali não te falou para não entrar?

_Sim, mas é que…

_Não quero saber. Saia, vamos!

Notei que ele até pensou em abordar os demais senhores e senhoras, mas os olhares de censura embotaram-lhe as palavras. Foi até outra mesa então.

_Moça, você quer um pouco de…

A mulher totalmente envolvida no delicado processo de convencer sua filha a comer brócolis, respondeu totalmente alheia:

_Hoje não. Não tenho trocado.

_Mas tia…

_Não sou sua tia, moleque. Vamos, Maria, coma os brócolis e eu te dou uma boneca nova.

O garoto rapazinho abaixa a cabeça e chuta uma pedra imaginária, novamente vencido. Minha curiosidade cresceu.

No que foi sua última tentativa, ele foi até duas moças que riam ruidosamente.

_Tia.

Não foi ouvido ou foi ignorado.

_Tia.

Uma das moças fez um comentário e ambas gargalharam, totalmente distraídas.

_Tia, com licença.

Só então elas o notaram, no exato instante em que o segurança o pegou pelos ombros, para em seguida expulsar-lhe da galeria.

Joguei os guardanapos no prato vazio, me perguntando o que afinal de contas o moleque queria tanto vender. Resolvi apurar os fatos. Peguei minha xícara e fui até a porta. Conferi, satisfeito, que ele estava na calçada, olhando contrafeito para o chão, sentado com o rosto apoiado nas duas mãos.

_Ei, garoto.

Teve um sobressalto. Deve ter achado que levaria outra bronca.

_Calma! Só quero saber o que você tem aí pra vender.

_Não tenho nada pra vender. Encontrei isso na rua, aqui em frente e não sei o que é.  Alguém deve ter perdido.

_Deixe-me ver.

_Chama-se generosidade. O senhor sabe o que é?

Senti algo semelhante a ser atropelado por um trem sem freios. Engoli em seco.

_O que devo fazer com isso, tio? O dono deve estar preocupado, não é?

Lembrei que ainda tinha café e, ao beber, me engasguei com o líquido amargo e gelado. Limpei lentamente os lábios com o lenço e o devolvi ao bolso.

_Não, filho. Provavelmente foi jogado fora, ou o dono nem se deu conta que o perdeu. – Suspirei compreendendo a ironia daquela situação – Pode me dar? Acho que preciso disso mais do que você.

_Claro! Pegue.

Assim que tomei o sentimento em minhas mãos, compreendi que ele estava faminto.

_Obrigado pelo presente. Posso te agradecer com um filé com fritas?

Um sorriso surpreso iluminou-lhe o rosto infantil. Concedi-me mais uma hora de almoço e, em troca, ainda ganhei um amigo.

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